Quantos likes eu mereço?
- 8 de nov. de 2017
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Depois de moldado, com o auxílio de inúmeros artifícios, o corpo precisa ser exibido, seja na rua ou nas redes sociais. “É um corpo produzido socialmente a partir do olhar do outro”, afirma Micheline Batista, jornalista e Mestre e Doutora em Sociologia pela UFPE. As redes sociais funcionam, então, como uma vitrine da vida. É lá onde as pessoas tendem a mostrar suas melhores versões, deixando uma boa impressão. Compartilham fotos, se conectam com amigos, conhecem novas pessoas e têm acesso a notícias e informações. Nas redes sociais, nunca se está sozinho. Sempre há uma plateia, seja um seguidor ou um amigo. “Todos parecem sempre simpáticos, inteligentes, portadores de hábitos saudáveis, ‘politicamente correto’ e adoram se divertir com os amigos. Poucos são os usuários de redes sociais que não têm essa preocupação de mostrar sempre uma imagem positiva de si mesmos”, diz Micheline Batista.
A “cultura da selfie” aparece neste cenário como a prática de tirar fotos de si mesmo ou de situações em que a pessoa está experienciando e postá-las nas redes sociais. Uma das razões pelas quais as pessoas compartilhariam desde detalhes mais triviais da rotina até os fatos mais importantes da vida pode ser explicada também pela necessidade inerente do ser humano de ser validado e, para que isso aconteça, ele precisa ser visto, compartilhado e curtido.

A rede social de compartilhamento de fotos mais famosa é o Instagram. Criado em 2010, nos Estados Unidos, hoje já tem 800 milhões de usuários ativos no mundo e 500 milhões ativos diariamente, conforme anunciou o Instagram em setembro. O diferencial do aplicativo é que ele oferece uma variedade de filtros que mexem com as cores e efeitos de luz da foto, proporcionando um produto final mais sofisticado e profissional. Desde 2016 o Instagram introduziu a funcionalidade de Histórias, vídeos curtos e fotos que são excluídos automaticamente depois de 24 horas, semelhante ao que já existia no Snapchat. Qualquer pessoa que tenha o aplicativo do Instagram instalado no dispositivo móvel também pode fazer transmissões ao vivo de qualquer acontecimento, mesmo que seja só para ‘conversar’ com os seguidores. São mais de 95 milhões de fotos postadas diariamente e mais de 250 milhões de usuários utilizam a função Stories todos os dias.
O Photoshop, ferramenta de edição de imagens, por sua vez, surge muito antes, em 1990, já nesta era digital. O software tem várias funcionalidades, mas a que ficou como marca característica, já que passou a ser amplamente utilizada pela mídia, é a de corrigir e esconder o que pode ser visto como um ‘defeito’. Aquilo que não está no padrão do que é considerado bonito. Então, na prática, manchas, marcas na pele, celulites, estrias, gorduras são literalmente apagadas, a fim de se criar o “corpo perfeito” que tanto se fala. As modificações digitais no corpo e rosto são feitas da forma mais sútil possível, para que os ‘consumidores’ daquele produto (capas de revistas, propagandas) não percebam o quão modificado determinada foto ou vídeo foi e acreditem que, de fato, aquela perfeição existe. O photoshop também pode ser utilizado como uma forma de testar certas mudanças antes de serem concretizadas.
Você próximo do seu ídolo
Separados apenas por uma tela, agora, os ídolos do cinema, televisão e música se tornam mais próximos e acessíveis. Os próprios artistas expõem suas vidas pessoais ao público, sem precisar do intermédio dos paparazzi e revistas de celebridades. Surgem também as blogueiras (de moda e maquiagem, em sua maioria) e Youtubers (produtores de conteúdo em vídeo para o YouTube), os ‘digital influencers’, isto é, pessoas que conseguem agregar uma boa quantidade de seguidores nas redes sociais, literalmente, influenciando-as. São pessoas que, com posts, fotos, vídeos ou comentários conseguem fazer com que os seus seguidores se interessem pela roupa, comida, ou qualquer tipo de produto que elas estejam consumindo. Essas pessoas passam a ser referências de beleza, moda, comportamento para seus seguidores. No Recife, um centro universitário particular já oferece um graduação de curta duração em Digital Influencer, com aulas voltadas para marketing e comunicação.
E são diversos os ramos que os influenciadores digitais atuam. No Brasil, por exemplo, Gabriela Pugliesi é a referência da área fitness, a pernambucana Camila Coutinho é da moda e Camila Coelho é uma das mais conhecidas no mundo no que diz respeito à maquiagem. Rayza Nicácio começou postando vídeos sobre cabelo cacheado no YouTube e é uma das pioneiras quando se trata de temas como transição capilar e cabelos cacheados e crespos. Tudo que estas pessoas fazem acaba sendo copiado pelos seguidores, quase como fossem espelhos dos outros.

Na ordem, Gabriela Pugliesi, Camila Coutinho, Camila Coelho e Rayza Nicácio. (Fotos: Reprodução Instagram)
Nos Estados Unidos, a família Kardashian-Jenner completou, em 2017, 10 anos da exibição do reality show ‘Keeping Up with the Kardashians’, que mostra o dia a dia da família. Nas redes sociais, Kim, Khloe, Courtney, Kendall, Kylie e a mãe Kris são extremamente populares e influentes em termos de estilo, maquiagem e beleza.
A década das Kardashains: Capa da Revista The Hollywood Reporter

Em 2015, surgiu um desafio nas redes sociais chamado “Kylie Jenner Lip Challenge”, inspirado em Kylie Jenner, a irmã mais nova das Kardarshian, de apenas 20 anos, no qual as pessoas deveriam utilizar objetos que causassem a sucção dos lábios para que eles ficassem inchados igual aos de Kylie. Só que não demorou para aparecerem os primeiros relatos de pessoas que se machucaram e apresentaram lesões graves na região da boca, que por si só já é bem sensível. A própria Kylie Jenner postou em seu twitter afirmando o seguinte: “Eu não estou aqui para tentar encorajar as pessoas e jovens meninas a parecerem comigo ou acharem que este é o jeito que elas deveriam ser. Eu quero encorajá-las a serem elas mesmas e não terem medo de experimentar com seus próprios visuais”.

Os lábios de Kylie Jenner viraram tendência na Internet. Ela tem linha própria de cosméticos e os batons fazem sucesso. (Foto: Reprodução Instagram)

Kylie já é segunda pessoa mais rica da família. Segundo a Revista Forbes, ela lucrou US$ 18 milhões em 2016. Ela já tem quase 100 milhões de seguidores no Instagram.
O desejo de ter um corpo aprimoradamente curvilíneo, igual ao das irmãs Kardashian-Jenner, também virou uma obsessão de mulheres do mundo tudo. Kim Kardashian já tem dois livros lançados (Selfish, de 2015, e Selfish: More Me!, de 2016), com nada menos que: suas selfies. Ela dá dicas de como sair bem nas fotos e mostra quais são as suas selfies preferidas. Mas nem tudo é o que aparenta. Foi revelado durante um dos episódios do reality show Keeping Up with the Kardashians que Kim teria desenvolvido dismorfia corporal e se tornado muito insegura depois que as pessoas, na Internet, criticaram muito o seu corpo, em fotos que foram tiradas quando ela estava de biquíni, durantes suas férias, no México, em maio deste ano. As irmãs debatiam que o problema teria a ver com a grande pressão online a qual ela é submetida. Kim Kardashian tem mais de 104 milhões de seguidores no Instagram.

Kim Kardashian é conhecida também pelas suas selfies (Foto: Repdrodução Instagram)
“Com a cultura da selfie, você pode apresentar também o seu corpo. Você vai colocar-se dentro de um quadro de pressão estética existente. Você entra realmente numa ditadura. Das duas, uma: ou você sai desse espaço de auto-representação o tempo inteiro ou, se você entra, você entra pagando um preço”, pontua o professor Eduardo Duarte, do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco.
Eu não sou obrigada a nada
A estudante de Jornalismo Ana Roberta Amorim, 22 anos, não está entre os 800 milhões de usuários do Instagram. E o motivo é bem simples: Ana Roberta não é fã de fotografar. Então, logicamente, ter o aplicativo não faria muito sentido para ela. Às vezes, ela até pensa em criar uma conta, mas não para uso pessoal e sim para projetos que pretende colocar em prática. “É uma questão de gosto. Eu não costumo tirar fotos no geral mesmo, de objetos, ambientes. E também demora muito para eu tirar uma foto minha e gostar, para ela ficar agradável a meus olhos e eu postar, então não vale muito a pena”, conta a estudante que utiliza o Twitter e, principalmente, o Facebook para se informar e se comunicar.
Entre os amigos, ela é a única que não tem uma conta no Instagram, o que poderia, de antemão, a privar de alguma forma, mas não é o que acontece. “Sinceramente, eu não me acho por fora de nada não. Mesmo que seja uma coisa no Instagram, eu posso ter acesso, se a conta for aberta, pelo navegador. Eu não perco nada e sempre vejo o que me interessa, que está no círculo de amizade”, explica Ana Roberta. Ela acredita que o máximo que pode ‘perder’ são algumas funcionalidades do aplicativo em si, não o seu conteúdo.
Apesar de não estar no Instagram, a estudante não é tão pessimista com a cultura da selfie. “Eu também acho que as pessoas fazem uma patrulha da vida alheia que não vale a pena. Não acho que a ‘cultura da selfie’ seja uma coisa ruim. Se a pessoa quiser postar fotos, situações da vida, eu não vejo problema. Talvez possa ser um pouco perigoso exibir demais os locais onde está, já que o mundo está tão inseguro, mas só”, afirma.
O que Ana Roberta acha que existe, muitas vezes, é uma “demanda construída”, obrigando as pessoas a estarem em certas redes sociais, quando, na verdade, não deveria ser assim. “Às vezes, parece que você é obrigado a ter tal aplicativo para você estar inserida no mundo. Acho que não necessariamente tem que ser assim. Você pode muito bem estar inserida naquele contexto, naquele universo, sem ter o aplicativo. Você pode ter acesso à informação de diversas formas. A graça da internet e da comunicação é essa”, afirma. Para a estudante, o que a televisão, a rádio e outros meios de comunicação limitam, devido à restrição de tempo e espaço, encontra na internet um terreno maior.




















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