"Gostar de si é um ato de rebeldia"
- 10 de nov. de 2017
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Daniela Martins (Foto: Reprodução Facebook)
A vida de Daniela Martins, 22 anos, mudou, literalmente, com um click. Ao postar uma foto nua em seu perfil do Facebook, a estudante de Ciências Biológicas só queria mostrar a própria beleza, demonstrar que é feliz como é, a despeito das imposições estéticas que ela sempre fora submetida. Mas o que era para ser algo positivo, acabou em dor de cabeça. Daniela foi alvo de milhares de ofensas gordofóbicas, racistas e machistas na Internet. O post que originou toda a polêmica foi denunciado tantas vezes que acabou sendo excluído. Antes disso, chegou a ter mais de 66 mil curtidas, 28 mil comentários e quase 17 mil compartilhamentos. Mas Daniela não se deixou abater. Pelo contrário, se tornou mais forte. Mais segura de si. E, por que não, uma “rebelde”. Gorda, negra, lésbica e periférica, Daniela vai de encontro a todos os padrões possíveis que a sociedade impõe. Para ela, que vive com a mãe e a irmã gêmea, no Recife, se amar é um ato de resistência. Em entrevista, Daniela conta como os ataques começaram e como encara a missão de transmitir boas energias e ajudar outras pessoas que ainda não são satisfeitas com o próprio corpo.

Post que originou a polêmica foi deletado
O fim da infância e começo da adolescência é uma fase de transformação do corpo. É também um período muito difícil para aqueles que não conseguem se encaixar nos padrões estéticos. Como era o seu relacionamento com sua imagem naquela época?
Na minha infância para adolescência, bem no início, eu comecei a ganhar peso. Como eu comecei a engordar, havia, sim, uma pressão. As pessoas diziam “Tu vai entrar na adolescência, não vai arranjar um namorado”. Mas em relação ao meu corpo, como eu ainda era muito criança e estava passando por essa fase de mudanças, eu nunca fui de me importar muito. Naquela fase transitória, eu não ligava tanto assim para o corpo.
Mesmo não se importando tanto, você chegou a fazer alguma coisa para mudar a aparência, para se encaixar em um padrão? Por exemplo, alisou o cabelo, fez dieta?
Isso sempre acaba acontecendo. Essa questão de querer mudar por alguém, nunca para a gente. Então, eu passei por várias dietas, várias vezes parei de comer, caminhei, fiquei me pesando. Até por pressão da minha mãe mesmo, da minha família, das minhas primas. Era uma imposição muito grande e, por isso, acabei fazendo muitas dietas, sim. Quanto a alisar o meu cabelo, antigamente não tinha, como hoje existe, essa questão do empoderamento. Eu pensava em como todas as meninas tinham cabelo liso e meu sonho era ter o mesmo tipo de cabelo. Por certo tempo eu alisei, sim. Eu lembro que na 7ª série, um dia eu alisei e fiz chapinha só para ir para escola, porque as meninas iam fazer uma festa e estavam todas de cabelo liso e eu queria também. Até a diretora falava do meu cabelo. Eu fiz muita coisa para mudar, para me encaixar em algo que não era meu, que não sou eu.
Qual foi o momento em que você disse para si mesma que precisava se aceitar, se gostar e amar o próprio corpo? Você fala muito a frase “Gostar de si é um ato de rebeldia”, quando você começou a desafiar a sociedade desta maneira?
Eu comecei a pensar desse jeito, a me aceitar, depois de uma ida à praia. Da 8ª série para o 1º ano, minha turma estava querendo “fugir” para ir à praia. Minha mãe não deixou, mas eu acabei indo. Só que as meninas avisaram na sala que eu teria que ir de biquíni. Quando eu cheguei lá, todo mundo começou a falar: “A baleia voltando para o seu habitat” e várias outras gracinhas. Eu tive que reverter tudo isso. Se alguém falasse alguma coisa comigo, eu tinha que reverter a situação e comecei a brincar também. Responder daquela maneira foi a minha fuga. Como viam que eu não estava mais ligando, o comportamento mudou e eu comecei a brincar cada vez mais. Só que poucos sabiam que era minha fuga para tentar ser aceita ali, sendo “diferente”.
Gostar de si é um ato de rebeldia mesmo. Você vai contra todo mundo, você vai contra a família, contra a sociedade para mostrar que você tem que gostar de si próprio como você é. Claro que existem meninas que dizem que só irão se sentir bem quando chegar em tal peso e essas coisas. Mas a questão está aí. Perder peso tem que ser para você e não para as outras pessoas, por pressão para ser quem você não é. Gostar de mim foi um ato de rebeldia muito grande.

As fotos de Daniela foram alvos de ofensas na internet (Foto: Reprodução Facebook)
Quando você postou aquela foto, em dezembro de 2016, você achou que teria tanta repercussão? O que passou pela tua cabeça antes de postá-la?
Aquela foto é bem antiga. Tinha um ano dela no Facebook e não tinha dado nada. Eu não pensei que iria dar aquela repercussão toda, porque a foto já estava no Facebook. No 1º ano do Ensino Médio, eu comecei a postar foto de biquíni, com roupas que eu não usava antes. Comecei a me aceitar também depois de um relacionamento super abusivo, no qual a outra pessoa me colocava para baixo, e aí eu tive que buscar amor próprio para saber que aquilo não dava mais, que eu precisava me amar. Já fazia um tempo, acho que um ano ou um ano e meio, que eu estava nessa luta para me amar. Eu comecei a ver que as outras pessoas estavam me olhando com outros olhos. Eu consegui ajudar outras pessoas a buscar aquilo que eu não tive: referências. Eu não tive uma mulher para dizer assim: “Poxa, aquela menina ali, ela se ama do jeito que ela é”. Eu tive que buscar dentro de mim mesma.
Durante esse processo de empoderamento você não teve alguém em quem se inspirar?
Eu não tive inspirações. Eu busquei isso tudo dentro de mim. Não tive pessoas para me espelhar, conversar sobre minha aceitação. Por isso, eu acho que é algo bem particular, bem meu. Não tive pessoas para me mostrar o outro lado. Hoje, algumas meninas já me falam que estão se amando porque veem fotos minhas, por exemplo. E eu não tive essa pessoa, esse alguém.
A sua foto teve muita repercussão. Com isso, surgiram também as ofensas. Como tudo começou?
Um menino começou a falar coisas, criticar minha foto, e eu discuti com ele. Outra menina entrou na discussão também e ele começou a marcar outras pessoas, tirou um Print Screen do meu perfil e colocou em um grupo que havia mais de 50 mil pessoas. Foi assim que os ataques, com várias ofensas, começaram.
Com todos aqueles comentários, você chegou a sentir medo? Ou você achou que era algo que estava restrito àquele mundo virtual? Quando você percebeu que era algo sério?
Se fosse outra pessoa, acho que teria enlouquecido. Muita gente chegou a me falar que era uma fase, que eu não deveria fazer nada comigo mesma. Eu sei a mulher que me tornei. Mas eu tive medo das ameaças físicas. De me encontrarem na faculdade e quererem me matar, me bater, porque algumas pessoas disseram que sabiam por onde eu andava. Só tive medo disso mesmo.
Você chegou a prestar queixa no Ministério Público de Pernambuco e na Delegacia de Crimes Cibernéticos, em janeiro. Mais de seis meses depois, no que deram as denúncias? Já conseguiram encontrar os responsáveis pelas ofensas? Você já teve algum retorno oficial?
Fui ao Ministério Público, depois fui à delegacia fazer o Boletim de Ocorrência, mas ainda não tive respostas. A advogada me chamou para entregar alguns papéis que chegaram aqui. A justiça já é lenta, então esse processo é bem lento também, e, por isso, ainda não tive retorno algum.
Daniela Martins (Foto: Reprodução Facebook)

O que mudou na sua vida desde aquele episódio?
Minha vida já vinha mudando desde o começo das fotos, já era até reconhecida por algumas meninas, não era tanto, mas já havia rolado isso. Depois da polêmica, mudou muito mais. As pessoas começaram a me chamar para fazer várias coisas relacionadas ao empoderamento gordo. Eu fui para o Rio de Janeiro fazer fotos para o site Ego. Logo depois de uma entrevista que dei ao G1, uma pessoa da Globo me ligou, perguntando se eu poderia tirar algumas fotos para o site, com a viagem toda paga e eu fui. Eu sou a mesma pessoa, não mudei nada. O que mudou foi a visibilidade, de agora conseguir ajudar outras pessoas.
Você me disse que o seu Facebook havia sido bloqueado recentemente, depois de ter postado fotos com as roupas da sua futura formatura. Por que você acha que as suas postagens e fotos ainda incomodam tanto?
Eu nem sei responder o porquê de incomodar. Da questão das fotos nuas, eu dei um tempo de postar porque preciso do meu perfil, eu tenho questões da faculdade, enfim, lá [no Facebook] tem várias pessoas com as quais eu converso, com quem eu me sinto bem. Lá é uma fuga para mim, onde posso falar o que eu quiser. E as pessoas se incomodam com a felicidade dos outros. Se está feliz, se está fora do padrão, acaba incomodando. Mas não para por aqui não. Vão bloquear, vão tirar. Mas há outras redes. Tem o Instagram, eu troco WhatsApp e aí um vai ajudando o outro, até porque a luta não é só minha.
Você participa de algum grupo feminista ou do movimento gordo?
Eu não participo de grupos, porque ainda estou sem tempo. Mas tenho algumas páginas e projetos com outras mulheres gordas. Também tem o Close Gordo na praia, que é um evento onde juntamos algumas mulheres gordas e vamos à praia. É incrível como isso choca algumas pessoas. É como se o gordo fosse diferente e não pudesse usar biquíni. Como eu vim ao mundo para revolucionar, eu uso o que quiser e ainda arrasto um monte de mulher também.
Você tem duas tatuagens que representam bem esse seu empoderamento, aceitação e amor próprio. Qual a história por trás delas?

As tatuagens de Daniela representam sua luta pela representatividade (Foto: Reprodução Facebook)
A minha tatuagem foi feita em outubro do ano passado (2016), antes da polêmica da foto. Na verdade, eu ia tatuar uma sereia gorda. Mas depois pensei melhor e percebi que queria algo que se relacionasse à resistência, à minha luta como mulher gorda, mulher pobre, mulher negra e como mulher lésbica. Eu vi a palavra resistência e depois eu falei, brincando com minha amiga, “vou colocar em uma panturrilha ‘Resiste’ e, na outra, ‘gorda’ ”. Minha amiga perguntou se eu estava falando sério e deixei assim mesmo. Era “resistência gorda”, mas depois eu troquei por “Resiste Gorda’’, e acabou ficando assim a tatuagem.
Você já tem muito seguidores nas redes sociais, quase 7.500 no Instagram e mais de 140 mil no Facebook. Qual a principal mensagem que você procura passar para quem te segue e, de maneira geral, te acompanha pelas redes sociais?
Que se amem do jeito que são. Que busquem sempre ser melhor, sem pisar nas pessoas. Eu sempre fui de insistir, de resistir, de lutar para ter o melhor, porque o meio que eu vivo, de comunidade, de periferia, eu sempre pensei alto, em querer algo mais. E acabei transmitindo isso para algumas pessoas, que o lugar onde eu estou, qualquer um pode chegar. Para as meninas, eu digo: se amem, se aceitem, busquem o amor próprio, porque não tem ninguém que mude o fato de a gente se amar do jeito que a gente é. Transmita isso para outras pessoas, porque isso foi minha fuga. Transmitir algo bom, transmitir que você é assim e nada vai mudar. Do mesmo jeito que gostar de si é um ato de rebeldia, transmitir às pessoas o que somos faz com que elas te entendam e te respeitem. Amem-se do jeito que vocês são e nada vai mudar.




















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