A beleza que afeta a mente e o corpo
- 11 de nov. de 2017
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Maria B. fala bem baixinho. É preciso fazer um esforço a mais para conseguir ouvi-la. Quem a vê hoje, talvez não imagine que ela fora uma adolescente extremamente tímida e reservada. Ou talvez sim, porque ela ainda precisa superar pequenos desafios que surgem no dia a dia. A estudante universitária, de 23 anos, lembra das vezes que não queria ser vista pelas pessoas, com vergonha das espinhas que tinha. Quando este pensamento parecia dominar sua cabeça, ela procurava evitar o convívio social, mas deixar de sair não era uma opção viável muitas vezes. Ela, então, recorria à maquiagem para esconder as acnes que teimavam em aparecer no rosto. O velho costume de só sair de casa usando algo na pele continua, mesmo hoje. Maria B. nunca foi muito de desmarcar compromissos e por isso tentava comparecer a todos, ainda que estivesse sentindo-se mal consigo mesma, o que piorava tudo. A baixa autoestima atrapalhou a vida dela em vários momentos. Mas ela não está sozinha.
O Relatório Global Beleza e Confiança de Dove, realizado a pedido da empresa de cosméticos Dove, em 2016, com 10.500 mulheres e meninas de 13 países, incluindo o Brasil, mostra que nove em cada dez mulheres e oito em cada dez meninas desistem de compromissos importantes quando não se sentem bem com a aparência. O Relatório Global 2017 sobre meninas e confiança na beleza, também feito a pedido de Dove, realizado com 5.165 garotas com idades entre 10 e 17 anos em 14 países, mostra que a insatisfação com a aparência faz com que as meninas brasileiras, mais do que quaisquer garotas de outras nacionalidades, evitem situações sociais. Além disso, a pesquisa, divulgada recentemente e obtida pelo site MdeMulher, mostra que, no Brasil, as adolescentes estão mais vulneráveis a serem afetadas de forma negativa pelos padrões de beleza.
Dados do Relatório Global Beleza e Confiança, de Dove:
Com uma simples busca pela internet, é possível encontrar dicas para se obter um rosto bonito e o 'corpo ideal'. As imagens quase sempre exibem mulheres magras, saradas, sem celulites, estrias, flacidez e brancas. No rosto simétrico, nenhuma mancha perceptível, o nariz fino, os lábios mais cheios, os dentes retos e os olhos claros. O cabelo é liso ou meticulosamente ondulado. Os sites de notícia mostram como a atriz da novela perdeu 10 quilos e como você pode perder também. É o "corpo perfeito", o "corpo dos sonhos", eles dizem. Os padrões que existem e estão estampados nas revistas, TV e nos corredores de lojas são criados e cultuados para serem os mais inalcançáveis possível.
O percurso para se chegar até o ‘ideal’ é longo e, muitas vezes, doloroso. Mexe com a cabeça e com o corpo, por dentro e por fora. O resultado é quase sempre o mesmo: insatisfação corporal e baixa autoestima. Apesar de a pressão estética existir também com os homens, é na mulher que recai o peso de ser e estar sempre bela. Ainda de acordo com o Relatório Global 2017 de Dove, 62% das garotas brasileiras sentem mais pressão para serem bonitas do que para terem bom desempenho escolar. Inclusive, pesquisa da Fundação Joaquim Nabuco, desenvolvida em 2013, em escolas públicas do Recife, mostrou que a baixa autoestima tem influência no desempenho acadêmico dos estudantes.
Quando tinha entre 13 e 14 anos, Maria B. entrou em uma agência de modelos, incentivada pelos conhecidos. Eles diziam que ela levava jeito para aquilo, talvez pelo fato de ela ser muito alta. Mas ela confessa que não gostava muito. Sentia-se um pouco desconfortável e com vergonha. "Não era para ter vergonha. Eu tento trabalhar nisso até hoje", diz. Mesmo assim, ela continuou por alguns meses. Depois saiu de uma agência e foi para outra, mas também não ficou muito tempo. Na primeira agência, o papel colado na parede informava: nos desfiles e fotos, os cabelos das meninas precisavam estar lisos. Para Maria B., isso significou o trabalho extra de escovar os fios cacheados. “Eu fui para a escola com o cabelo liso e as pessoas elogiaram, o que nunca tinha acontecido antes com ele cacheado. Então comecei a fazer mais vezes até que não teve mais volta”, lembra. A falta de referências também a desencorajava a usar o cabelo natural e solto. “Eu não via o meu cabelo como defeito ou qualidade, ele era neutro pra mim até chegar na adolescência. Eu também não via ninguém com o cabelo igual ao meu valorizando isso”, conta. Desde 2013, porém, entrou no processo de transição, deixou a química nos fios de lado e voltou ao cabelo natural.
Corpo, cérebro e imagem: o espelho distorcido
É no início da adolescência que começam a ocorrer as mudanças significativas no corpo, devido aos hormônios. As proporções corporais se alteram, a altura, peso, assim como o nariz e os lábios, além de mudanças na voz, na pele e nos órgãos internos e sexuais. As modificações também podem ser observadas no comportamento e socialmente, já que é a fase em que buscamos nos firmar como indivíduos e nos encaixar em um grupo. Com todas essas transformações, é inevitável que a forma que a pessoa se vê também mude.
A imagem corporal é a maneira que o nosso cérebro percebe a nossa imagem, como explica o psiquiatra João Carlos Leitão. Segundo ele, o cérebro tem uma predisposição genética para que o indivíduo se acha magro ou gordo, por exemplo, e existe também na genética uma inclinação para determinado padrão de depósito de gordura. Apesar desses fatores, o cérebro humano é totalmente moldável em relação à formação da representação corporal. “É como se a cultura e a forma que você se trata fossem dar as bases para a formação dessa imagem que você tem de si mesmo. Ao longo do tempo, a imagem vai se formando. E existe um padrão, uma movimentação habitual”, explica. O psiquiatra conta que no processo é levado em consideração, além da imagem vista no espelho, a relação com aquela imagem, isto é, as expectativas que você tem diante do seu corpo, o que você gostaria de mudar, por exemplo; por fim, há a imagem que percebemos, resultante da soma entre a criação mental com o que está no espelho. “É uma criação complexa, uma projeção em cima da realidade”, pontua.
“Quando a gente é mais nova e começa a se reconhecer no mundo, não queremos ficar diferente dos outros, queremos ser ‘normais’, mas o padrão de normalidade é muito restrito, ele não deveria nem existir porque cada pessoa é única. Muitas crianças e adolescentes são bem cruéis. Os meus complexos iniciaram aí com uns comentários dos meus coleguinhas”, conta a estudante Maria B. Com tempo, ela conseguiu trabalhar certas inseguranças sozinhas e quando começou a namorar, Maria B. passou se sentir mais confiante. “Nunca fui a um psicólogo, mas gostaria, porque, vez outra, eu me sinto muito mal comigo quando tenho que sair e não tem um motivo, é como se fosse algum trauma”, conta.
Quando a insatisfação corporal e a preocupação excessiva com a aparência começam a gerar um sofrimento psíquico e atrapalhar atividades diárias, é sinal de algo possa estar errado. Transtornos mentais como a Depressão, Ansiedade e o Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) são comuns. O TDC é caracterizado por uma obsessão pelos defeitos, reais ou não, que alguém acredita ter, afetando a percepção que ela tem do corpo e, assim, se enxergando de maneira distorcida. Contudo, como explica o psiquiatra João Carlos Leitão, são os transtornos alimentares que estão no centro das “doenças da beleza”, termo que agrega os transtornos relacionados à imagem corporal.

Cena da série britânica My Mad Fat Diary. (GIF: WeHeartIt)
A ideia de que todo mundo pode emagrecer (sozinho, sem acompanhamento médico ou com dietas milagrosas), ou que pode ter determinada aparência e ficar parecida com uma atriz, ator, modelo, cantora ou com alguém que viu na Internet, basta querer e ter força de vontade, é bem difundida. Porém existem fatores biológicos, sociais, econômicos que quase ninguém leva em consideração. E, aí, quando não se alcança o padrão “ideal”, vem a frustração e a culpa. Para o psiquiatra João Carlos Leitão, a cultura do corpo perfeito incentiva o adoecimento mental. “É como se cultivássemos a própria base para o adoecimento. E quando o adoecimento vem, culpamos apenas o cérebro e a genética. Mas nos esquecemos de como estamos cuidando mal de nossa saúde mental. Falo isso como cultura, como povo. Olhamos para o aspecto externo de nosso corpo e comparamos dia após dia e não percebemos que essa pressão pode nos levar ao adoecimento mental grave”, afirma.
Os Transtornos Alimentares
O Relatório Global 2017, de Dove, também traz dados quanto à saúde. No Brasil, 96% das meninas entrevistadas colocam a saúde em risco ao deixar de ir ao médico e ficar sem comer. O número é maior que a média global (75%). A professora Tatiana Berthulino, do Departamento de Psicologia da Universidade de Pernambuco (UPE), campus Garanhuns, reforça a relação entre insatisfação com a imagem corporal e transtorno alimentar. “Não existe a ideia de um sem o outro. Não é só uma preocupação excessiva com o corpo, é uma insatisfação com esse corpo”, explica. Questões genéticas, características de personalidade, como compulsividade, obsessividade e perfeccionismo, além da pressão social fazem com que algumas pessoas se tornem mais suscetíveis do que outras.

Preocupação com as medidas do corpo é uma constante nos pacientes com transtornos alimentares (Foto: Pixabay)
A Anorexia Nervosa e a Bulimia Nervosa são os distúrbios de conduta alimentar mais conhecidos e recorrentes. De maneira geral, se assemelham devido a fatores como a preocupação com a quantidade do alimento, distorção da imagem corporal, medo de engordar e vontade de emagrecer. É o que explicam a professora do Departamento de Nutrição da UPE Cristhiane Omena e a nutricionista Georgia Nicoli. O que diferencia cada transtorno é que, na anorexia nervosa, há diminuição extrema da ingestão alimentar, com perda intensa e constante de peso, o que pode evoluir para um enfraquecimento extremo (caquexia e inanição). Já na bulimia nervosa, “o que ocorre é uma compulsão alimentar periódica, caracterizada pela ingestão, em um período limitado de tempo, de uma quantidade de alimento excessiva, seguida de métodos compensatórios para evitar o ganho de peso”, explicam. Ou seja, uma pessoa bulímica apresenta comportamentos purgativos, como vômitos, laxantes e diuréticos, e/ou comportamentos não purgativos, como a prática de exercícios físicos em exagero e jejum, para compensar a culpa de ter comido compulsivamente. Os transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, também podem acarretar um aumento da morbidade e mortalidade, provocados, principalmente, por complicações cardiovasculares, insuficiência renal e suicídio.
Há também outros transtornos alimentares e comportamentais relacionadas ao corpo, como a compulsão alimentar (comer em excesso) e a vigorexia (prática excessiva de exercícios físicos associada a preocupação obsessiva com o corpo e práticas alimentares muito restritivas).
Jovens e mulheres
Estudos científicos apontam que são as mulheres que têm maior probabilidade de desenvolverem transtornos alimentares. Ainda não há muitas publicações que abordem o percentual do público masculino, mas acredita-se que não chegue nem a um terço dos casos. “Diversos autores têm confirmado a tendência do sexo feminino de ter uma preocupação em obter um corpo magro, assim mais predispostas a anorexia e bulimia, enquanto que os do sexo masculino visam ao ganho de massa muscular, tendenciando a maior incidência a vigorexia”, explicam as profissionais Cristhiane Omena e Georgia Nicoli.
Quanto à idade, é também na adolescência o período mais propício ao desenvolvimentos dos distúrbios. “Quanto mais novos, há uma tendência maior para anorexia. Pelos 15, 16 anos, a bulimia nervosa prevalece”, afirma a professora Tatiana Berthulino. Há também alguns grupos específicos em que a incidência dos transtornos é maior, apesar de não ser a regra, lembram as especialistas. São eles: estudantes e profissionais da área de Saúde, principalmente de Nutrição, modelos, artistas e praticantes de esportes e atividade em que há um maior controle do peso, como ginástica olímpica e balé. Sobre os estudantes e profissionais da área de Nutrição, ainda não se conhece o motivo. “Nós não sabemos se é o curso de Nutrição ou se é a pressão pela pessoa fazer nutrição e ter que ser magra, ou a pessoa que já tem um distúrbio e vai em busca do curso por isso”, afirma Tatiana Berthulino.
Para a estudante de Medicina J.R, 19 anos, a chegada do vestibular significou uma mudança total em sua rotina. Em 2015, J.R foi diagnosticada com bulimia nervosa e vem convivendo com o distúrbio pelos últimos dois anos. Como precisava se dedicar aos estudos para conseguir uma vaga de um curso muito concorrido, J.R parou de frequentar a academia e de fazer exercício físico, o que, até então, era algo comum e constante em sua vida. Assim, passou a ficar muito tempo em casa. A rotina de comer e estudar fez com que J.R engordasse e, para aliviar o estresse e culpa, J.R começou induzir os vômitos. A prática logo foi associada também a compulsão.
A bulimia trouxe consequências não apenas para a saúde de J.R, mas também para sua vida social e desempenho nos estudos. “Já passei por experiências péssimas de querer vomitar, mas estar em locais públicos. Para a minha vida acadêmica, é péssimo também, porque eu sempre me descontrolo pós compulsão e deixo de ‘tocar’ minha vida por conta disso”, conta a estudante.
Diagnose
No Brasil, o diagnóstico de um distúrbio alimentar só pode ser dado por um médico. Contudo, psicólogos, nutricionistas e educadores físicos podem observar alguns sintomas. Não comer em público; deixar de ir a eventos sociais, principalmente nos que haverá comida; no caso da anorexia, há uma perda visível de peso; já no caso da bulimia, não há tanto a perda de peso, mas a pessoa vive de dieta e depois de comer mais do que deveria, acaba “fugindo” para esconder a purgação. Outros profissionais da área de Saúde, como dentistas, também podem ajudar na identificação do transtorno alimentar. “O cirurgião-dentista pode verificar sinais resultantes da Bulimia Nervosa, como o eritema do palato, faringe e gengiva e alterações dentárias. Embora o diagnóstico só poderá ser fechado pelo médico”, ressaltam Cristhiane Omena e Georgia Nicoli.
O psiquiatra João Carlos Leitão explica que o diagnóstico é realizado de maneira clínica. “O diagnóstico é feito através da entrevista e da percepção do estado psíquico da pessoa durante a consulta. Existem ferramentas diagnósticas, como testes pré-formatados. Eles devem ser estudados pelos especialistas, mas é o seu olhar clínico e sua capacidade de sentir com o outro o problema dele é que vai ser a base do diagnóstico”, afirma. Entre os instrumentos para avaliação da imagem corporal, um dos mais utilizados, por exemplo, é o Body Shape Questionnaire (BSQ), que contém 34 questões para analisar a satisfação e preocupação com o corpo.
O que, muitas vezes, dificulta o diagnóstico é que as pessoas com bulimia e anorexia escondem que estão com um problema, seja por medo, insegurança ou vergonha. As pessoas não costumam falar abertamente que possuem um distúrbio alimentar. Daí a importância da observação dos comportamentos característicos apresentados quando se encontram rodeados por outras pessoas. Mas segundo a professora Tatiana Berthulino, é a família que irá desempenhar importante papel na identificação do transtorno. “Principalmente será a família que vai entender como a pessoa se comporta nas reuniões familiares, em almoços, nos jantares, no dia a dia. Por isso que é importante a família acompanhar, ter pelo menos uma refeição ao dia com o adolescente, para entender como está o contexto alimentar”, afirma. Dos pais, J. até tentou, mas só conseguiu esconder o distúrbio por menos de um mês, antes deles descobrirem que algo estava errado e ela teve que contar a verdade.
Efeito bola de neve
O pensamento de que o distúrbio é controlável é também muito comum entre os pacientes diagnosticados com bulimia e anorexia. Tudo começa com uma simples dieta, depois vai evoluindo para uma restrição maior na ingestão do alimento, o que pode ocasionar a compulsão alimentar. A pessoa restringe a alimentação pelo dia e, durante a noite, tem a compulsão. Ou então, a pessoa acredita que, quando conseguir chegar a determinado peso na balança, ela irá simplesmente parar. Só que, ao chegar ao peso desejado, ela percebe que precisa perder mais peso ainda, tornando-se um ciclo vicioso.
“Nós sabemos que todas as pessoas que têm transtorno alimentar começaram com algum tipo de dieta. Isso não quer dizer que toda dieta leve a transtorno alimentar, mas nós sabemos que todo transtorno começou com uma dieta. Essa é uma frase bem famosa da Sophie Deram, uma nutricionista franco-brasileira. Os pacientes falam, que quando começaram, tinham certeza que parariam. Só que aí o transtorno se torna mais forte. Os pacientes se culpam por ingerir o mínimo de doce que for, e percebe-se que começam a sofrer para comer”, conta a professora da UPE Tatiana Berthulino. Além disso, outro fator agravante é que, como a magreza é socialmente tão aceita e desejada, às vezes, as pessoas ao redor não conseguem perceber os transtornos em seus estágios iniciais, inclusive elogiando e incentivando a redução do peso. São normalmente os familiares ou alguém próximo que normalmente levam as pessoas com transtornos alimentares a um profissional em busca de ajuda, quase nunca há uma procura espontânea por parte deles, segundo os especialistas. Para J.R, os vômitos começaram como forma de aliviar o estresse dos estudos e evoluiu para a compulsão e bulimia.
A professora Tatiana Berthulino lembra que o transtorno alimentar é um dos transtornos mentais que têm as mais baixas respostas em relação à melhora, mas que, com o tratamento adequado, é possível observar bons resultados. A tríade mínima para o tratamento de um transtorno alimentar consiste de psicólogo, nutricionista e psiquiatra, que poderá avaliar se será necessário o uso de medicamentos ou não. Outra equipe também precisa fazer o acompanhamento, como um médico clínico, endocrinologista, um terapeuta familiar, - quando indicado, e um educador físico. “Acaba sendo um tratamento de uma equipe grande, o que o encarece e, para que tenha bons resultados, o ideal seria que todos os profissionais fossem treinados para transtornos alimentares. Treinados, no sentido de saber como funciona, pois trata-se de um transtorno com muitas especificidades, encarecendo ainda mais o tratamento, porque poucos profissionais possuem esta especialidade”, conta.
Ainda de acordo com ela, são poucos os centros especializados no Brasil. “No Recife não há nenhum, nem no Nordeste existe centro universitário que possa oferecer de forma gratuita o tratamento realmente especializado”. O tratamento público existe, mas um que atende de forma homogênea outros transtornos.
J.R já recebe o acompanhamento médico apropriado. Mas hoje, apesar do tratamento, ela confessa que ainda tem restrições contra a própria imagem e inseguranças com o corpo. “Eu não me sinto 100% à vontade com ele. Me incomoda praia, biquíni e situações em que eu precise deixá-lo amostra. De certa forma, não deixo de fazer nada, só não faço completamente”, afirma. Para ela, ainda há muito preconceito na sociedade quando se trata de transtornos alimentares e que o tema pode ser considerado um tabu. “Assim como toda doença de caráter psíquico, é sempre carregada de preconceitos do tipo ‘isso é falta de vontade’, ‘frescura’ ou que é uma ‘desculpa’”, diz a estudante.
J.R, que via nas meninas que seguia na rede social Instagram a inspiração para o “corpo ideal” e com quem sempre se comparava, hoje utiliza a internet e as redes sociais para procurar relatos de pessoas que passam ou já passaram por algo semelhante ao que ela viveu. Para J.R, é de extrema importância que existam pessoas na Internet que promovam um discurso de aceitação e amor próprio. Que propaguem a ideia de que ninguém precisa transformar o corpo para se encaixar em um padrão estético. Mas ela também acha que o problema é muito mais profundo. “Não consigo acreditar que vá parar com a busca do corpo, porque acho que envolve economia, indústria da estética e muito dinheiro”, pontua.
Maria B. e J.R não se conhecem. São bem diferentes, na realidade. Mas a trajetória de vida delas se encontra em vários pontos: meninas que na adolescência sentiram a necessidade de esconder, disfarçar, mudar o corpo, rosto e o jeito de ser para se encaixarem, fazerem parte do padrão, às custas de um desgaste psíquico e físico. Hoje, Maria B. tenta não deixar que as coisas a afetem como acontecia antes. Para ela, não tem sentido fortalecer algo - o padrão - que atende apenas a um número muito pequeno de pessoas. J.R busca não se culpar tanto e procura ver que o alimento não é um mal a ser combatido e, sim, algo essencial ao bom funcionamento do corpo.
Serviço:
Se você precisar de alguma ajuda ou conhece alguém que precise, no Recife e Região Metropolitana, algumas universidades da cidade oferecem atendimento com psicólogos e psiquiatras em Clínicas Escolas, reconhecidas pelo Conselho Regional de Psicologia de Pernambuco (CRPPE) e com preços acessíveis. Pelo Brasil, há grupos e centros de tratamentos especializados em transtornos alimentares.
Recife e RMR
Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – (81) 2126.8731 ou clinica.psi@ufpe.br
Clínica de Psicologia da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) – (81) 2119.4115
Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE) – (81) 2122.3500 (*Discar 2 para falar com a clínica)
Faculdade de Ciências Humanas (Esuda) – (81) 3412.4267
Uninassau – (81) 2122.5922
Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (FACHO) – (81) 3087.0071
São Paulo
Ambulim, do Instituto de Psiquiatria (IPQ), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP);
Programa de Assistência à Pacientes com Transtornos Alimentares (PROATA), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Rio de Janeiro
Convênio firmado entre o Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares (GOTA) com o Instituto de Psiquiatria (IPUB), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ);
Núcleo de Doenças da Beleza, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), que realiza o atendimento psicológico para portadores de transtornos alimentares e/ou relacionados à imagem corporal também em hospitais públicos.




















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