Entre o real e virtual
- 9 de nov. de 2017
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Em seu mais famoso livro, “A representação do Eu na vida cotidiana”, lançado em 1958, o sociólogo canadense Erving Goffman usou elementos da dramaturgia para explicar os mecanismos da vida social. Palco, máscara, personagens, bastidores, performances, plateia: tudo faz parte das interações do dia a dia. A atuação tem um objetivo específico, que é o de construir um personagem coerente de acordo com as normas da sociedade e de manter a impressão adequada.

Erving Goffman usou conceitos do teatro para explicar a vida social (Foto: Wikimedia Commons)
O conceito de “máscara” na obra de Goffman está ligado à aparência física apresentada ao público, assim como às representações coletivas e estereotipadas, criadas culturalmente e associadas a determinados papéis. A “fachada pessoal” também está relacionada à aparência e revela o status social e atividade da pessoa. Logo, quando alguém está em seu ambiente de trabalho, aquele papel exige dela uma máscara diferente da que ela utilizaria em um ambiente familiar, por exemplo. A gestão de imagem seria importante para regular a atuação e para que tudo aconteça conforme o planejado.
Apesar destas ideias de Goffman estarem voltadas para as interações face a face, os seus conceitos continuam a fazer sentido quando se fala sobre o mundo virtual e suas infinitas possibilidades, que hoje estão em alta. Até porque, como explica Micheline Batista, jornalista e Mestre e Doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), os mecanismos das relações virtuais são os mesmos da vida real. “Não há uma separação e sim uma continuidade”, afirma.
Intermediado por um computador ou pelo celular, é muito mais fácil representar um personagem ou criar uma versão idealizada de si mesmo, uma visão que não necessariamente corresponde à realidade. “A internet, sem dúvida, mudou o modo como pensamos, estudamos, trabalhamos, compramos, divertimo-nos, produzimos e consumimos informações. A mudança mais fundamental, contudo, talvez tenha ocorrido na forma como nos relacionamos e nos comunicamos, pois hoje podemos nos encontrar e interagir com outras pessoas também através da internet”, explica.

A internet trouxe mudanças nas relações interpessoais. (Foto: Freepik)
O Brasil tem hoje mais de 120 milhões de usuários de Internet, quarto lugar no ranking mundial e atrás de Estados Unidos (242 milhões), Índia (333 milhões) e China (705 milhões), de acordo com o relatório sobre economia digital, divulgado em outubro pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. O número corresponde a 59% da população brasileira, o que mostra que ainda há um caminho considerável a ser percorrido até que se chegue a totalidade da população com acesso à Internet.
A efemeridade e instantaneidade da Internet tornaram as relações mais fluidas. É a modernidade líquida, a qual o sociólogo polonês Zygmunt Bauman se referia. Neste cenário, a forma como as identidades são apresentadas também mudam. Micheline Batista explica que o sujeito passa a ter possibilidade de assumir diferentes identidades, em momentos distintos. “Essa fluidez e pluralidade encontram na internet um terreno fértil, pois é através da rede mundial de computadores que a nossa sensação de encurtamento do espaço e do tempo se torna mais acentuada. Nas redes sociais da internet, posso criar uma narrativa que destaque apenas uma das minhas identidades”, explica.
Mas isso não significa que exista uma identidade off-line e outra on-line. O que acontece é que, no mundo virtual, o indivíduo tem se tornado cada vez mais fragmentado. “Na pós-modernidade, as novas identidades, ao contrário das velhas, não são unificadas nem coerentes. Somos mães/pais, cônjuges, irmãs/irmãos, trabalhadoras/trabalhadores, estudantes, amigas/amigos, consumidoras/consumidores e esses diversos papéis que desempenhamos no dia a dia, alguns até contraditórios, nos permitem usar máscaras variáveis. Essa multiplicidade identitária, evidentemente, também se reflete quando utilizamos a internet”, afirma Micheline Batista.
O mundo virtual também proporciona uma variedade muito maior de referências que buscamos para formar a nossa própria identidade. “Essa mudança enorme que houve entre o mundo analógico e o mundo digital vai provocar modos de subjetivação específicos”, explica Elaine Magalhães, professora da Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Os “migrantes digitais”, isto é, aqueles que nasceram e cresceram antes de todo este desenvolvimento tecnológico, têm percepções diferentes daqueles que são “nativos digitais”, a quem o acesso à tecnologia é natural.
Um exemplo seriam os limites entre o público e privado que estão cada vez mais ambíguos. “Antigamente, havia a questão do segredo, do diário, de contar informações mais íntimas para a melhor amiga e ela não podia contar para ninguém. Algo mais romântico. Hoje, as pessoas colocam tudo nos blogs e redes sociais e, uma vez que colocam, aquilo não pertence mais a ela, porque está ali na tela e todo mundo está vendo”, explica a professora. Então, a experiência e os acontecimentos não estão mais completos até que sejam compartilhados com outros indivíduos, conhecidos ou não.
A relação das pessoas com seus corpos também muda diante destas novas dinâmicas. “Nas últimas décadas, o corpo deixou de ser visto apenas como carne (no sentido religioso do termo) ou como mera força de trabalho para se tornar carregado de significados e objeto de culto narcisista”, afirma Micheline Batista. As academias, cosméticos, cirurgias plásticas, dietas, entre outros artifícios, atuariam aqui para modelar os corpos conforme os padrões de beleza.




















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