O emPODERamento que vem da Internet
- 7 de nov. de 2017
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Se por um lado a cultura da selfie envolve o dilema do narcisismo e as consequências para uma sociedade que gosta de se exibir, por outro, a vastidão do mundo virtual permite que diferentes pessoas, com diferentes pensamentos e estilos de vida, tenham espaço de fala, o que não ocorreria em outros meios.
Muitos padrões de beleza que, uma vez foram privilegiados, passam a ser questionados na Internet. Ao encontrar outras pessoas que também não se encaixam nos padrões valorizados, é mais fácil sentir-se representado e perceber que não é preciso mais seguir o que antes era imposto sem muita reflexão. “De um lado, a ‘pressão estética’ se amplia pela reprodução de referenciais de beleza tradicionais, mas ao mesmo tempo ela diminui quando percebemos que há mais pessoas vivendo de outras formas e sendo felizes assim”, lembra a jornalista Micheline Batista. Ou seja, existe uma parte da Internet em que todos devem ser ‘bonitos, ricos e felizes’, mas aparentemente existe também uma parte muito maior, na qual as pessoas podem ser do jeito que elas quiserem.
A internet foi importante na vida da estudante Ana Roberta Amorim, porque mudou a forma como ela se enxergava. “A internet ajudou não só a mim, mas outras pessoas também, porque comecei a olhar para mim mesma e ver que eu não sou tão ruim quanto eu imaginava. Acho que a internet também serve para isso”, conta. O compartilhamento de experiências, tão comum na vida on-line, também é importante neste processo de autoconhecimento. “Se uma outra pessoa começa a contar as próprias experiências, você começa a ver que aquela situação não é única na sua vida. Outras pessoas também passam por isso e, se ela conseguiu, você pode conseguir igualmente. E mesmo que a outra não tivesse conseguido, você poderia ser a primeira a conseguir e passar isso para outras pessoas”, afirma.
Ciberativismo
O Instagram é uma rede social, cujo apelo visual é muito forte. Por isso, como lembra Micheline Batista, a interação textual é pouca e não existe a reciprocidade, já que ninguém é obrigado a seguir o outro de volta. “É bem comum a exposição de corpos e vidas perfeitas (mas não apenas isso), sem que essa exposição seja problematizada”, pontua. Por outro lado, no Facebook, a imagem também é mais valorizada, mas é mais fácil existir o debate lá, entre outros fatores porque existe uma relação bilateral no ato de ‘tornar-se amigo’ de outra pessoa.
“Os grupos do Facebook põem em contato pessoas que tenham algo em comum: uma experiência, um interesse, um problema ou uma causa, seguindo a lógica da identificação. Nesses espaços, inclusive, podemos observar movimentos interessantes, como a (re)valorização de algumas identidades étnicas e de certos padrões de beleza até então pouco disseminados, em que ser magra e 'esculpida', por exemplo, deixa de ser um ideal universal para as mulheres", afirma Micheline. Movimentos sociais como o Feminismo, que existe desde o século XIX, e o Movimento Negro, por exemplo, ganham força nas redes sociais e rompem os limites do virtual e são levados para o mundo real. Nos Estados Unidos, o Movimento Black Lives Matter (As Vidas Negras Importam, em tradução livre), que é contra a violência a pessoas negras, principalmente cometidas por policiais, surgiu em 2013, nas redes sociais, com a hashtag #BlackLivesMatter.
Entre as várias bandeiras que o feminismo defende, uma delas é não objetificação do corpo feminino e o princípio de que os corpos das mulheres pertencem somente a elas (em todos os aspectos) e não aos homens e ao que o imaginário deles deseja que o corpo das mulheres seja. Quem sofrem mais com a pressão estética? Quem é mais diagnosticado com os transtornos alimentares e insatisfação corporal? Quem mais realiza cirurgias plásticas? Quem é o maior público-alvo da indústria de cosméticos? ‘Mulheres’ é a resposta de todas as perguntas anteriores. E não é coincidência alguma.
Desde a infância as meninas são incentivadas a usarem as maquiagens da mãe, quando crescem, os adultos - da própria família, em um primeiro momento - dizem que elas precisam ser magras para serem bonitas e que ser bonita é importante para conseguir um namorado e, futuramente, um marido, e serem felizes. E até para serem bem sucedidas profissionalmente elas precisam estar sempre impecáveis, esteticamente falando. Como se apenas ser uma pessoa qualificada e competente nunca fosse o suficiente. A feminilidade vira sinônimo de beleza. E o feminismo vem para quebrar esta lógica, encontrando nas redes sociais um canal de comunicação eficiente.
Na Internet, as informações são apresentadas de maneira mais acessível, aproximando às pessoas das mensagens de empoderamento e valorização que tentam transmitir. “Uma coisa é você defender a sua ideia no seu círculo de amizade, ou escrevendo artigos, livros, enfim, coisas que não chegam a maioria da população. Nem todo mundo tem acesso a livros, nem todo mundo tem paciência para ler artigos, nem todo artigo tem uma linguagem fácil de ser compreendida. A internet democratiza, vamos dizer, a linguagem, e o assunto que você está falando”, pondera a estudante de Jornalismo Ana Roberta.
YouTubers como Luiza Junqueira, do canal Tá Querida, Alexandra Gurgel, do Alexandrismos, e Nátaly Neri, do Afros e Afins, trazem vídeos com temáticas como autoestima, vida plus size, empoderamento feminino e negro, além de maquiagem, moda e cabelo. No Instagram, hashtags como #bodyposity e #bodypositive são usadas para identificar aquelas pessoas que promovem aceitação do corpo e do amor próprio.
Uma destas Instagramers que mantém uma atitude positiva em relação ao corpo é Tacila Concê, 25 anos, de Salvador. Tacila nem sempre foi ativa nas redes sociais, começou usar somente entre 2015 e 2016. Hoje em dia, o seu amor por fotografia faz do Instagram a plataforma que ela mais utiliza e na qual já reúne mais de 6 mil seguidores em seu perfil (@itsuburbio). “Eu não lembro quando comecei a ganhar tantos seguidores. Eu estava pensando muito sobre isso. Eu não sei de onde sai essa gente maravilhosa que gosta de mim de um jeito que eu nunca achei que fosse possível”, diz, em entrevista para esta reportagem.

Tacila Concê é uma Instagramer de Salvador (Foto: Reprodução Instagram)

Tacila Concê (Foto: Reprodução Instagram)
Entre selfies, foto do look, do corpo, de paisagens, com amigos, espontâneas ou fotos mais produzidas, ela atualmente prefere postar suas selfies. “Mas eu gosto muito de postar foto do meu corpo. Eu sou infinitamente apaixonada por ele”, conta. A internet e as redes sociais a influenciaram de maneira positiva no relacionamento com a própria imagem e corpo. “A internet me ajudou muitíssimo também, eu encontrei pessoas parecidas comigo, com pensamentos parecidos e corpos parecidos e me fez descobrir um amor que estava dentro de mim e eu não sabia que estava lá” afirma Taciana, que também tenta empoderar outras pessoas, com suas postagens.

Tacila tem ótima relação com o corpo (Foto: Reprodução Instagram)
O primeiro comentário negativo que recebeu foi chocante para ela, mas logo teve que aprender a lidar com os outros que recebeu e ainda recebe de vez em quando. “É difícil distribuir amor e receber tanto ódio de graça, tem gente no mundo inteiro disposto a gastar dados móveis para dizer que ser gordo é nojento, mas aprendi a ignorar", afirma Taciana. Para ela, ignorar é a melhor resposta.

Tacila Concê (Foto: Reprodução Instagram)




















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