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A estética e a busca pela beleza

  • 10 de nov. de 2017
  • 10 min de leitura

(Foto: Acervo Gratuito Wix)

A ideia de que o corpo pode ser (re) modelado e alterado é o que faz muitos buscarem a cirurgia plástica, umas das práticas mais antigas da medicina. Os primeiros relatos são datados de antes de Cristo. Referências indicam reconstrução de mutilações no nariz, lábios e orelhas em diversas civilizações ocidentais e orientais. Contudo, a especialidade e o termo “cirurgia plástica” foram designados pelas primeira vez pelo médico alemão Eduard Zeis só em 1838.

Hoje, a cirurgia plástica e a ideia de beleza andam juntas. Só que, além do propósito estético, muita gente não sabe que a cirurgia plástica pode ter também um fim reparador. Mas o que as distingue? De acordo com o cirurgião plástico Moisés Wolfenson, PhD em Cirurgia Plástica e professor da Faculdade de Medicina da Uninassau, no Recife, apesar das diferenças, as duas modalidades estão ligadas diretamente.

A cirurgia plástica estética é para embelezar. É feita em partes ‘normais’ do corpo com o objetivo de modificar e melhorar a aparência de determinada região que cause insatisfação no paciente, tentando promover uma melhora da autoestima. Enquanto que a cirurgia plástica reparadora é realizada em regiões ‘anormais’ do corpo, como queimaduras, defeitos congênitos ou adquiridos e tumores na pele. Ou seja, a cirurgia reparadora é para corrigir uma estrutura anormal do corpo, visando melhorar as suas funções e, claro, a aparência. “Toda cirurgia estética tem um fundo reparador e toda cirurgia reparadora você tem que fazer pensando a parte estética, para ter um melhor resultado”, explica.

O Brasil é o segundo país do mundo onde mais se realiza cirurgias plásticas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Segundo dados do censo disponibilizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), em 2016, foram realizadas 1.472.435 cirurgias no Brasil. Destas, 839.288 (57%) foram cirurgias estéticas e 633.147 (43%) reparadoras.




As mulheres são as que mais procuram os consultórios em busca de intervenções cirúrgicas. Não é coincidência que são elas que estão mais submetidas e pressionadas pelos padrões de beleza. É possível perceber pelo ranking de procedimentos realizados que, cirurgicamente, a maior preocupação e insatisfação se concentram no corpo. Tanto que, entre as cinco cirurgias mais realizadas, três são nas mamas: ou para aumentá-las, ou reverter o caimento e flacidez (mastopexia), ou então diminui-las. As outras duas são feitas para retirar gordura e/ou pele da região abdominal. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica atribui, entre outros aspectos, a quantidade de cirurgias realizadas no Brasil ao clima tropical. Com temperaturas mais quentes, os corpos ficam mais expostos, fazendo com que os atributos físicos sejam mais valorizados no país.

Para o cirurgião Moisés Wolfenson, outra explicação para a abundância de procedimentos realizadas no Brasil está na quantidade e qualidade dos profissionais locais. Inclusive, o país é um dos maiores destinos do turismo cirúrgico: pessoas que vem ao Brasil para realizar uma cirurgia plástica estética. No vídeo abaixo, o cirurgião Moisés Wolfenson responde um dos motivos que levam o Brasil a ser uma das referências mundiais na especialidade.

O médico Moisés Wolfenson sobre o motivo do Brasil ser um dos principais pólos de cirurgia plástica no mundo


A gastrônoma Isabelle Queiroz já realizou cirurgias plásticas em duas ocasiões diferentes. A primeira em 2007, quando tinha 24 anos, e a segunda em março deste ano, aos 34. As idades estão dentro da faixa etária que mais realiza cirurgias plásticas, segundo pesquisa da SBCP: 19 a 35 anos (38%), seguido por por pessoas com idades de 36 a 50 anos (34,2%) e 51 a 64 anos (15, 8%).

A primeira cirurgia dela foi uma lipoaspiração, na qual foram retiradas um pouco mais de quatro litros de gordura. Além disso, colocou um litro de gordura nas nádegas. “Eu tenho 1,64 de altura e, na época, eu pesava 55 quilos. Eu não fiz para perder peso, eu fiz, porque eu era ‘quadrada’, não tinha cintura, não tinha nádegas. Acho que queria minha cintura fina igual a de Thalía [cantora e atriz mexicana]”, conta. Em 2016, Isabelle teve uma gestação tubária e precisou fazer uma cirurgia de emergência para retirada do feto. A cicatriz do umbigo para baixo virou uma quelóide. “Inicialmente eu só queria corrigir a cicatriz. Mas aproveitei que já ia fazer um procedimento e resolvi fazer outra lipoaspiração, uma abdominoplastia, além da redução de mamas, porque eram muito grandes e me incomodava”, afirma.

Isabelle Queiroz já fez intervenções cirúrgicas em duas oportunidades. (Foto: Denise Resende)

Nos dez anos que separam a primeira da segunda cirurgia, Isabelle engordou quase 20 quilos. Antes de decidir realizar os últimos procedimentos, ela buscou outras alternativas. Sem sucesso. “Fui para o nutrólogo, endocrinologista, tomei vários remédios, fiz dieta, drenagem, mas, como não costumava fazer exercício físico, não conseguia emagrecer”. E justamente pelo fato de estar acima do peso considerado ideal, não ficou satisfeita com o resultado da última operação, que foi realizada com um profissional diferente do da primeira vez. “Fiquei com muita gordura ainda nas costas, mas eu estava acima do peso e o médico só pode tirar uma determinada quantidade de gordura. Então, assim, teoricamente foi culpa minha. Mas ele também não me alertou sobre essa possibilidade”, diz. A insatisfação com o resultado acaba sendo muito comum entre as pacientes.

Conversa é fundamental

O cirurgião plástico Ivo Pitanguy, um dos mais reconhecidos do mundo, falecido em agosto do ano passado, costumava dizer que o cirurgião plástico é um psicólogo com bisturi na mão. Segundo Moisés Wolfenson, que foi aluno de Ivo Pitanguy, o médico precisa entender o que está se passando na cabeça do paciente, quais os seus medos, motivos e expectativas. Para isso, o diálogo franco é essencial para se conseguir um bom resultado. “De repente, você quer uma cirurgia radical demais e eu não posso fazê-la. Ou de repente você veio aqui por uma coisa ‘mínima’ e o que é mínimo e o que é máximo só quem vai saber é você. Às vezes, é uma coisa muito séria para uma pessoa e para outra não teria o menor valor. Às vezes, é uma coisa muito pequena, mas que tem muito valor para você. Então, a gente precisa ter essa conversa para que eu entenda até onde você quer ir e até onde eu posso chegar”, explica.

Isabelle sentiu no bolso o intervalo entre as duas cirurgias. “A diferença de preço entre uma e outra é absurda. O plano não cobre nem o hospital, não cobre mesmo. Eu tentei até fazer, porque, querendo ou não, tinha a cirurgia reparadora. Mas iria ser muita burocracia para conseguir e o valor seria mínimo. Não valia a pena”. Segundo informações da pesquisa da SBCP, 59,3% das cirurgias são realizadas de maneira particular; 19,8% são feitas pelo convênio do plano de saúde e 16, 3% das cirurgias são feitas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), quando a cirurgia tem fim reparador, como lábio leporino, queimaduras e deformidades, por exemplo.

A Constituição também garante a cirurgia plástica reparadora nos casos de mastectomia. A lei federal nº 10.223, de 15 de maio de 2001, diz respeito a obrigatoriedade da cirurgia plástica reparadora de mama por planos e seguros privados de assistência à saúde nos casos de mutilação decorrente de tratamento de câncer. A lei federal nº 12.802, de 24 de abril de 2013, obriga o SUS a fazer a cirurgia plástica reparadora da mama logo em seguida à retirada do câncer, quando houver condições médicas. Caso não seja possível, a paciente deve ser encaminhada para acompanhamento clínico.

Para o futuro, Isabelle já planeja outras cirurgias plásticas. Além de corrigir a lipoaspiração que fez este ano, outro desejo é fazer a bichectomia, que retira gordura da bochecha e afina o rosto, mas ainda tem receios. “Eu sei que é uma cirurgia muito nova e ainda não se sabe como pessoas que fizeram a bichectomia irão ficar quando estiverem mais velhas, se a pele vai cair mais do que o normal. Então, eu prefiro esperar”, conta. Se ela tem medo de fazer todas essas cirurgias? Nem um pouco. “Eu entro feliz, feliz, feliz, pensando só no resultado”, afirma.

Há outras possibilidades

Nem todos os procedimentos estéticos são feitos mediante cirurgia, existem opções ‘menos invasivas’ e não cirúrgicas. Em 2016, relatório da SBCP mostra que foram realizados mais de 1.3 milhão de procedimentos não cirúrgicos no país. Entre eles, os mais realizados foram toxina botulínica (96,4%) que reduz ou elimina linhas de expressão e rugas, por exemplo; o preenchimento (89,5%) usado para aumentar lábios finos, suavizar e eliminar rugas e melhorar a aparência das cicatrizes; o peeling químico (23,6%) para suavizar a textura da pele, removendo manchas; a suspensão com fios (17,7%) para rejuvenescimento do rosto; e o laser (12,3%) para reduzir reduz cicatrizes faciais, rugas e manchas.

Muitos procedimentos estéticos são realizados na região da face (Foto: Freepik)

De toda forma, o Conselho Federal de Medicina lembra que os procedimentos devem ser realizados por médicos especializados. Em setembro deste ano, a Justiça Federal do Distrito Federal, por meio de liminar, suspendeu os efeitos de norma do conselho profissional dos enfermeiros que previa a atuação destes na área estética. Assim, procedimentos como microagulhamento, laserterapia, depilação a laser, criolipólise, escleroterapia, intradermoterapia/mesoterapia, peelings, entre outros, só podem ser realizados por médicos.

Se as cirurgias plásticas são mais realizadas no corpo, os procedimentos menos invasivos estão mais voltados para a região do rosto. Suavizar rugas e linhas de expressão demonstra ser uma das, senão a maior preocupação de parte das pessoas que procura os tratamentos estéticos não cirúrgicos. É até possível dizer que retardar ou esconder os sinais do envelhecimento é uma prática antiga e a ideia de que a beleza teria idade para acabar ainda é um pensamento comum. Desde o final do século XVIII, a pele passou a ser objeto de estudos médicos para atender à indústria de cosméticos e da beleza. Os avanços tecnológicos permitiram aperfeiçoamento nos métodos e seus respectivos resultados.

De acordo com o professor Eduardo Duarte, do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), este medo de envelhecer está ligado ao medo de morrer, tema ainda tabu na sociedade ocidental, diferente do que ocorre nas civilizações orientais. “Nos dias de hoje, o medo de envelhecer ou de parecer velho é por ser discriminado num mundo que é feito para os jovens. Tudo é muito jovial, e envelhecer é como não fazer parte desse mundo simbólico de vigor, energia e pertencimento social”, explica.

Pesquisa realizada em 2016 pela empresa farmacêutica Allergan, com 8 mil mulheres, de 16 países, incluindo o Brasil, mostrou que para mulheres, que buscam tratamento estético, o desejo de aumentar a autoconfiança (42%) é tão importante quanto melhorar a estética da pele flácida (42%). No Brasil, as manchas na pele, causadas pelo envelhecimento, são a maior preocupação de 81% das mulheres entrevistadas.

Os três países que mais fazem uso de preenchimentos faciais ou consideram fazê-lo são Turquia (96%), Tailândia (90%) e Brasil (72%). Além disso, 52% das participantes brasileira indicaram os olhos como parte do rosto que escolheriam realçar e 43% já realizaram algum procedimento ou consideram fazer alguma intervenção ao redor dos olhos para ter o visual desejado. Mais do que em qualquer outro país, para 34% das mulheres brasileiras entrevistadas, uma pele bonita é o fator mais importante na definição da beleza exterior.


A indústria da beleza

Maquiagem é um dos principais setores da Indústria da Beleza (Foto: Freepik)

Ainda de acordo com a pesquisa da Allergan, quando questionadas sobre quais palavras representam o que é a beleza feminina, 21% das mulheres responderam algo relacionado à “pele”, seguida de “estilo” (19%), “cabelo” (14%) e maquiagem (13%). Não é à toa que o indústria de cosméticos é muito forte. O setor teve faturamento líquido de vendas de R$42,6 bilhões em 2015, segundo o anuário da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC). Com a crise econômica no país, tal número significou uma retração de quase 9%. A primeira nos últimos 23 anos. Até 2014, a Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos tinha crescimento mais expressivo que o restante da economia.

O mercado brasileiro representa 7,1% do mercado mundial, ocupando a quarta posição, ficando atrás de Estados Unidos, China e Japão, de acordo com dados da Euromonitor. As principais categorias são de depilatórios, desodorantes, perfumes, produtos masculinos, proteção solar, higiene, produtos infantis, para cabelos, banho, maquiagem e produtos para pele.

O mercado de cosméticos vem tentando se adaptar às novas ― e velhas ― demandas dos consumidores. As empresas começaram a apresentar novas fórmulas e maior variedade de produtos, a fim de atender às necessidades de um maior número de pessoas, como é o caso dos produtos para cabelos cacheados e crespos, que vem crescendo nos últimos anos. Em setembro deste ano, a cantora Rihanna lançou sua linha de produtos de maquiagem. A Fenty Beauty foi considerada revolucionária, pois apresentou 40 tons de base, ocupando uma lacuna que a indústria não conseguia preencher: maquiagens para todo os tipos de pele e tonalidades. Normalmente, as empresas oferecem tons muito escuros, claros demais e alguns intermediários, que não conseguem incluir a todos.


Fenty Beauty, a linha de maquiagens de Rihanna investe na diversidade: são 40 tons de base (Foto: Reprodução Instagram)

A mágica da transformação?

Historicamente, com a ajuda da publicidade, a indústria de cosméticos foi tentando aproximar “aquilo que um rosto é do que aparenta ser”. Como meticulosamente destrinchou a professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Denise Bernuzzi de Sant’Anna, em seu livro a História da Beleza no Brasil, os cremes de tratamento, por exemplo, deixaram de ter uma textura espessa e branca para serem transparentes e com embalagens de plástico, o que proporcionava uma discrição e praticidade para o embelezamento.

A maquiagem, por sua vez, não era mais para esconder e dissimular as imperfeições, mas para funcionar como uma “segunda pele”. A maquiagem para os olhos e lábios começaram a ganhar espaço no dia a dia das mulheres, deixando de ser algo restrito às estrelas do cinema. As propagandas e profissionais da área de estética difundiam o discurso de que a beleza não seria apenas algo natural, mas algo que poderia ser conquistado com o hábito de se maquiar e cuidar da pele, cabelo, sorriso.

O discurso que associa certas características ou práticas à dicotomia belo e feio, desejado e indesejado, triste e feliz, certo e errado não se restringe apenas às propagandas de variados produtos. Nos filmes da década 90 e começo dos anos 2000, por exemplo, a mocinha, para ter um final feliz, passa pela transformação mágica da aparência.

Cena do filme "O Diário da Princesa" (2001), voltado para o público infanto-juvenil, mostra o antes e depois da personagem principal

No antes, o “patinho feio” tem óculos, cabelo cacheado/crespo, não usa maquiagem e se veste com roupas “fora da moda”. No depois, o “cisne” perde os óculos, o cabelo fica liso e a maquiagem e roupas estão impecáveis. Ou então, a vida da personagem, quase sempre uma mulher, muda completamente não quando ela arranja um emprego ou algo do gênero, mas sim quando ela emagrece e, consequentemente, encontra um par romântico. Como se as duas coisas fossem excludentes. E esse pensamento acaba sendo levado para a vida real também.


Cena do filme "O Diário da Princesa" (2001)

Associando beleza e felicidade com maquiagem e pele ou cabelo, corpo e roupa é como se a indústria da moda, dos cosméticos e a mídia dissesse: “Veja, nós criamos os padrões estéticos, mas não se preocupe, porque nós também oferecemos os produtos e técnicas que podem ajudar você a chegar até lá, caso você esteja disposto (a)”. E é justamente aí que está o problema: para eles, ser você mesmo nunca será suficiente, quando, na verdade, deveria ser o bastante.


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