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Corpo, beleza e sociedade

  • 11 de nov. de 2017
  • 4 min de leitura

“Se tu entrar na piscina, teu cabelo vai molhar?” foi uma das coisas que a advogada Nicole Duarte* (Nome modificado a pedido da entrevistada), 23 anos, teve que ouvir das meninas que estudavam no mesmo colégio que ela por causa do cabelo crespo. Quando tinha dez anos, Nicole saiu de uma escola pequena do bairro onde morava, no Recife, e foi para um colégio grande. Lá, algumas meninas faziam com que as outras crianças até parassem de falar com ela. Foi quando decidiu alisar os fios, que até então ficavam o tempo todo presos em tranças. “Eu não sei nem qual é a textura do meu cabelo, na verdade, porque todo tempo que ele ficou natural, foi na trança. Então, eu realmente não tenho lembrança do jeito que ele é”, conta.

Para Nicole, a boa relação com o corpo também não era tão fácil devido ao seu peso. “Nunca gostei muito do meu corpo por causa do sobrepeso, a dificuldade de comprar roupa e tudo mais, mas eu também nunca fui do tipo que pensava em emagrecer o tempo todo”, afirma. Quando precisou fazer dieta, foi mais por saúde do que por estética. Mesmo assim, para ela, era inevitável se comparar às cantoras, atrizes, modelos e apresentadoras de TV, desde a infância, quando assistia à novela Chiquititas, até a adolescência, vendo canais como MTV. “Você quer se ajustar àquela roupa que você achou bonitinha em tal pessoa, e você não só não encontra, mas se encontrar, vai ficar estranho, porque não é feita para o seu corpo”, afirma Nicole. Ela lembra também que passou anos sem ir à praia ou piscina, porque não queria usar os trajes de banho. “Eu acho que passei uns dez anos sem ir à praia, sem usar biquíni, porque eu não me sentia confortável. Eu vim usar esse ano e eu não me senti mal”.

Hoje, Nicole tenta não se preocupar com o que as outras pessoas pensam e vê a internet como importante ferramenta para o empoderamento e aceitação. “A internet me empoderou de alguma forma. Ver outras pessoas falando ‘meu cabelo é isso, tô sofrendo na transição, vou assumir’ ou ‘meu corpo é desse jeito, vou assumir’. Isso dá um pouco de força para todo mundo. Poxa, não é errado eu ter um corpo diferente de, sei lá, Fernanda Lima [a atriz e apresentadora]. Não é errado, é o meu’, afirma. “Eu acho que olhando para trás eu nunca nem teria alisado meu cabelo, sabe? Eu daria respostas mais contundentes. Ou poderia ter até alisado ao longo do tempo, mas não por uma coisa de ‘tenho que me encaixar, tenho que fazer as pessoas pelo menos falarem comigo', conclui.

Subjetivações

Com a imprensa, as propagandas, filmes e, agora, com as redes sociais, passamos a ter uma série de fontes de onde buscamos as nossas referências de beleza, comportamento e estilo. O teórico francês Michel Foucault mostra como as pequenas regras e imposições acabam por promover um controle social, disciplinando nossos corpos e formas de pensar. Os corpos dóceis, abordados por Foucault, “são aqueles corpos que podem ser submetidos, utilizados, transformados e ‘moldados’ de acordo com os interesses de determinadas instituições ou grupos sociais detentores de poder”, explica o cientista social Marcos Araújo.

No processo de criação da subjetividade, seguimos os códigos e valores estabelecidos, socialmente aceitos e valorizados, para sermos reconhecidos e parte do grupo maior. Ao mesmo tempo, buscamos nos individualizar, ser um diferencial. “As diferentes formas de subjetivação são os conhecimentos que se desenvolvem a partir dos elementos idiossincráticos dos indivíduos, das relações que estes estabelecem com os 'outros' e com as esferas econômicas, políticas e de poder mais amplas nas quais tais indivíduos estão inseridos”, afirma Araújo.

Não apenas a forma como nos percebemos, mas também a maneira como nos identificamos enquanto indivíduos, em um determinado contexto social, é plural e dinâmica, e depende de fatores como a classe social, a raça, a etnicidade, idade, nacionalidade. “Cada indivíduo ou grupo social constrói com base nas suas trajetórias de vida, nos seus interesses particulares, nos seus diálogos interculturais e nas suas experiências cotidianas, as formas como as suas identidades sociais serão construídas, expressas, mobilizadas e comunicadas”, explica o cientista social.

A beleza detém prestígio social, pelos menos atualmente, porque a ela estão associados princípios, como felicidade, prosperidade e sucesso. “Muitas pessoas buscam se ‘encaixar’ em determinados padrões estéticos porque entendem que, dessa forma, poderão mais facilmente 'subir na vida', conseguir oportunidades, contatos, reconhecimento social”, lembra o cientista social Marcos Araújo.

O estudante de Jornalismo Gustavo Alves, 22 anos, também teve uma relação complicada com a própria imagem, principalmente na adolescência, quando estava no Ensino Médio. O cabelo crespo, as espinhas no rosto e a voz o incomodavam muito. Ao ver TV e ler revistas, idealizava algo que não tinha e não era. “Eu tive uma fase em que eu também era muito preocupado com a minha altura, porque eu queria ser modelo, aí eu via que não tinha a altura certa para isso e me sentia muito mal”, lembra o estudante.


O estudante Gustavo Alves aprendeu a gostar de si mesmo (Foto: Denise Resende)

O corpo magro, em comparação com o os outros meninos da idade, também viraram motivo de preocupação e bullying. Na sala de aula, perdeu a conta de quantas vezes deixou de interagir e se expressar pelo medo do que as outras pessoas iriam achar da sua aparência e jeito. No cabelo, usou todos os tipos de química para deixá-lo mais liso. No rosto, cremes, maquiagem e até pasta de dente para tentar eliminar as espinhas.

Para Gustavo, o conhecimento e a internet o ajudaram a ver as coisas de maneira diferente. Mas a maior mudança, segundo ele, veio de dentro. “É um processo mais interior. De você entender que você não é perfeito, as pessoas não são perfeitas e que aquele padrão existe e que é uma coisa totalmente montada e que você, nem ninguém, nunca vai chegar àquele padrão”, afirma. Com o cabelo descolorido e piercing no septo do nariz, Gustavo tem presença marcante. Alguns anos atrás ele fazia tudo para permanecer invisível ou chamar o mínimo de atenção possível. Mas hoje não. Hoje ele faz o contrário.


Gustavo hoje mantém uma relação de paz com o corpo (Foto: Denise Resende)


O estudante Gustavo Alves fala sobre a relação com corpo e imagem durante a adolescência e como é hoje:


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