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Quando a beleza e a história se encontram

  • 12 de nov. de 2017
  • 8 min de leitura

Harmonia e equilíbrio entre as partes. Na Grécia Antiga, muitas ideias foram difundidas a respeito do que seria belo. Estaria a beleza naquilo que nos agrada, que admiramos e que nos satisfaz? Ou seria o belo imperceptível aos olhos, porque a verdadeira beleza residiria na alma? Para os gregos, além da estética, a beleza estava associada também a outros valores, como a justiça, simetria e proporção, observadas não apenas no corpo humano, mas também nas variadas formas de arte. A palavra “kalokagathia”, união de “kállos” (belo) e “agathós” (bom), expressava o ideal grego de perfeição: para além do belo, uma boa personalidade.

Na história, o conceito de beleza encontra o conceito de corpo e depende, sobretudo, de qual período e cultura estamos falando, indicando que são ideias subjetivas e variáveis. “Em cada época histórica, existem valores morais e éticos e, em cima desses valores do momento, se funda o ideal daquilo que deveria ser o correto. O correto enquanto prática política e social, cidadania e também, por consequência, o que diz respeito a estética”, explica Eduardo Duarte, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco.

Mas, afinal, quem teria o poder para definir o que é belo ou não? A história ocidental mostra que, ao longo dos séculos, os filósofos, artistas e poetas, por meio de suas obras, eram as referências no quesito. Desde o século 20, a mídia, a indústria cinematográfica e as propagandas vêm desempenhando este papel na sociedade contemporânea. O escritor e filósofo italiano Umberto Eco reuniu em seu livro História da Beleza, lançado em 2004, as transformações acerca do conceito de beleza ao longo dos anos.

De volta à Grécia Antiga, foi com o desenvolvimento de Atenas como uma grande potência militar, econômica e cultural, no século V a.C, que a ideia de uma beleza estética começou se estruturar. Na prática, o corpo e beleza ideais ganharam formas nas famosas esculturas gregas. O escultor Policleto chegou a escrever um tratado das proporções do corpo humano, o Cânone. Os homens tinham direito à cidadania, à vida política e os seus corpos musculosos, atléticos e - quase sempre - nus revelavam a força e prestígio que possuíam perante a sociedade. O corpo quente, também masculino, era mais forte e ágil. O homem grego, especialmente o ateniense, deveria exercitar não apenas o físico, nos ginásios, mas também os conhecimentos e a oratória.


À esquerda, Discóbolo, estátua do escultor grego Míron. À direita, Doríforo, de Policleto.

Foto: Livioandronico2013/ Wikimedia Commons Foto: Ricardo André Frantz/Wikimedia Commons

As mulheres na sociedade grega, por outro lado, não possuíam os mesmos direitos. Elas deveriam ficar em casa, vestidas com túnicas que iam até o joelho ou até os tornozelos, quando estavam na rua. A mulher grega tinha uma cintura mais larga; a pele deveria ser branca ou mais pálida e os braços e pernas eram fortes. Porém, a beleza feminina era vista como problema. Segundo Homero, autor da Ilíada, a irresistível beleza de Helena de Tróia, a mulher mais bela do mundo, teria provocado a tão conhecida Guerra de Tróia.


Afrodite de Cnido, por Praxíteles, é uma das primeiras Helena de Tróia, de Antonio Canova

representações de uma deusa completamente nua

Foto: Domínio Público/ Wikimedia Commons Foto: Sailko/ Wikimedia Commons



Na Roma Antiga, o conceito de beleza foi muito influenciado pelo que já existia no Egito e na Grécia. Para ficarem com a aparência mais branca, as mulheres, que naturalmente tinham um tom de pele mais próximo ao oliva, costumavam usar muito pó no rosto, como o pó de giz. Além disso, as bochechas deveriam ser rosadas; os olhos, pretos; e as sobrancelhas, mais grossas. Contudo, a maquiagem não era muito bem vista pela sociedade romana, que, apesar disso, valorizava muito os acessórios e vestimentas. “A beleza é um dom frágil; com os anos, ela se esvai, murcha com o tempo”, escreveu o poeta Ovídio, responsável por relatar alguns dos rituais de beleza das mulheres romanas.

Apesar da imagem de “era das trevas”, a Idade Média foi uma época em que a beleza estava ligada à claridade e às cores, principalmente porque Deus e a Igreja ocupavam um grande espaço na sociedade medieval. Para São Tomás de Aquino, a beleza precisava de três coisas: proporção, integridade e claridade/luminosidade. A diferença entre os ricos e pobres era bem acentuada e, para demonstrar poder, os nobres costumavam usar muitas joias e vestir roupas com cores muito vivas. “Nas pinturas da Idade Média, você vê vestimentas extremamente sofisticadas, mas com pessoas que, dentro do padrão estético de hoje, nós chamaríamos de feias, mesmo com as melhorias feitas pelos pintores. E eles eram duques, viscondes. A alta nobreza. Então, não estava associado a um padrão físico”, conta o professor Eduardo Duarte. Acreditava-se que os olhos claros e brilhantes eram os mais bonitos e a pele rosada era uma característica importante. Os rostos das mulheres eram mais angelicais, assim como o da Virgem Maria.


Casamento de Filipe III, da França, com Maria de Brabante, no final do século XIV. (Foto: Wikimedia Commons)


O Renascimento, período em que houve o resgate da arte clássica, trouxe uma ideia de beleza como imitação da natureza. As mulheres renascentistas usavam cosméticos e se preocupavam muito com os cabelos, longos e loiros avermelhados. O corpo feminino ganhou mais curvas e volume. Nas pinturas, a nudez idealizada era refletida na imagem da Vênus de Botticelli. Do outro lado, o homem renascentista se colocava no centro do mundo e, pelas pinturas, era retratado como mais gordo e forte. “Ser gordo era sinônimo de ser rico, de nobreza. Ser magro era porque você estava muito mal nas classes sociais e não comia direito”, explica Eduardo Duarte.

O nascimento de Vênus, Sandro Botticelli

Com o final do século XIX e início do século XX, a cultura do audiovisual mudou a maneira com a qual as pessoas se comportavam diante das câmeras. Nas décadas de 40 e 50, as estrelas de Hollywood, como Marilyn Monroe e Marlon Brando, por exemplo, eram as referências de corpo, moda e comportamento. “Esses personagens acabam firmando um ideal próprio de estética. Ditam um certo padrão estético e comportamental”, afirma o professor. Marilyn Monroe, com o corpo curvilíneo, seios fartos e quadris largos, era e ainda é considerada um dos maiores símbolos de beleza da época.


Marilyn Monroe (Foto: Pixabay) Marilyn Monroe (Foto: Milton H. Greene/Wikimedia Commons) Marlon Brando (Haava/Wikimedia Commons)


Em 1959, foi lançada a primeira boneca Barbie, fabricada pela Mattel, nos Estados Unidos. Uma das bonecas mais vendidas do mundo, a Barbie é loira, magra, alta, tem olhos azuis, cintura fina e cabelos longos, o que passou a ser considerado um ideal e referencial de beleza para as meninas. Não é raro ouvir “Ela é uma Barbie” ou “Ela parece uma Barbie” para caracterizar a beleza de alguma mulher. O ilustrador norte-americano Nickolay Lamm, contudo, calculou quais seriam as medidas reais da boneca, indicando que ela teria 91cm de busto, 45cm de cintura e 83cm de quadril, o que é impossível para uma pessoa feita de carne e osso.

Beleza brasileira

No Brasil, a beleza no início do século XX estava nos detalhes das roupas, sapatos e adereços, sendo muitas ideias importadas da Europa, como mostra o livro História da Beleza no Brasil, da professora e historiadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Denise Bernuzzi de Sant'anna. Cabelos e rostos nas mulheres; e cabelo, barba e bigode nos homens eram algumas das maiores preocupações, já que eram as partes do corpo mais expostas. Por décadas, o corpo mais cheinho, com cintura fina (“de pilão”) e os quadris largos foi considerado ideal. A pele lisa continuava a ser um atributo importante para mulheres e homens. Os cabelos lisos também eram os mais desejados e não foram poucos os artifícios criados para alisar os fios e, só a partir da década de 80, que o mercado para os negros e para o cabelo afro ganhou força. A referência de beleza masculina também se alterava com o desenvolvimento urbano. De uma silhueta magra e pequena, se passou a valorizar o corpo mais robusto e forte. Os produtos específicos para barba e cabelo também começaram a aparecer.

Gisele Bündchen (Foto: Tiago Chediak)

A partir da década de 60, a indústria da moda apresentava um corpo cada vez mais magro, alto e reto. Os procedimentos estéticos, incluindo cirurgias plásticas, e os mais variados tipos de cremes e produtos também ganharam espaço. Logo surgiram os primeiros remédios para emagrecer. Na mídia, as revistas voltadas para o público feminino repercutiam o discurso de “só é feia quem quer” para mostrar que ser “bonito” era apenas uma questão de escolha própria. O conceito de beleza, então, estava cada vez mais se associando ao de felicidade.

Na década de 90, as supermodelos altas, magras e com os ombros largos e pernas longas eram a tendência. Em 2000, por exemplo, a brasileira Gisele Bündchen foi considerada a modelo mais bonita do mundo, segundo a revista Rolling Stone. Apesar de ter se aposentado das passarelas em 2015, ela continuou sendo a modelo mais bem paga do mundo em 2016, posto que ocupa desde 2002, de acordo com a Forbes.

Para os homens, os jogadores de futebol e outros atletas acabam sendo referências de estilo e aparência, principalmente quando se trata de cabelo, roupas e acessórios. Jogadores de futebol como Neymar, Daniel Alves, o português Cristiano Ronaldo, o argentino Lionel Messi, o espanhol Gerard Piqué e ex-jogador inglês David Beckham deixam de estampar apenas as notícias esportivas e passam a ser estrelas de campanhas publicitárias para produtos masculinos.


Atletas também são referenciais de beleza (Fotos: Reprodução Instagram)

Recentemente, os discursos de aceitação do corpo e empoderamento ganharam força e, com eles, novas tendência da moda, como a plus size, que atende mulheres e homens que vestem acima do tamanho 46. Mais do que uma numeração maior nas roupas, a moda plus size coloca as mulheres gordas, anônimas e famosas, em espaços, que não pouco tempo atrás lhes eram negados parcial ou totalmente. Modelos, como a americana Ashley Graham e a brasileira Fluvia Lacerda, passam a estampar capas de importantes revistas do segmento, enquanto cantoras como a britânica Adele e a funkeira MC Carol, e atrizes brasileiras como Fabiana Karla e Cacau Protásio, alcançam posições de destaque em suas respectivas áreas de atuação.

A americana Ashley Graham (Foto: Reprodução Instagram) A brasileira Fluvia Lacerda (Foto: Reprodução Instagram)


Os cabelos também aparecem como forma de reafirmação da identidade. Dados da Google BrandLab São Paulo, divulgados em julho deste ano, mostram que, no último ano, a busca por cabelos cacheados cresceu 232% no Brasil e, assim, ultrapassou pela primeira vez a busca por cabelos lisos no país. Ainda de acordo com a pesquisa, 24% das mulheres de 18 a 24 anos reconhecem o cabelo como cacheado. Porém, quanto mais velha a mulher, mais difícil é este reconhecimento ocorrer.

As duas últimas Miss Brasil (2016 e 2017) são negras, nordestinas e têm cabelo cacheado. A baiana Raissa Santana, Miss Brasil 2016, representando o Paraná, foi a primeira negra a vencer o concurso de beleza após 30 anos. Em 1986, a gaúcha Deise Nunes levou a coroa e consagrou-se a primeira negra a ganhar o Miss Brasil na história. Em 2017, a eleita foi Monalysa Alcântara, do Piauí. De 1954, ano de realização do primeiro concurso Miss Brasil, até agora, só três ganhadoras foram negras, em um país onde mais da metade da população (54%) é de pretos ou pardos, segundo o IBGE. E isso diz muito sobre quem os padrões de beleza contemplou, por muito tempo: um grupo muito reduzido e restrito de pessoas.


As duas últimas vencedoras do concurso Miss Brasil: Raissa Santana (2016), de rosa, e Monalysa Alcântara (2017), de preto. (Foto: Reprodução Instagram)

Em 2016, a empresa farmacêutica Allergan realizou uma pesquisa sobre beleza feminina do ponto de vista das próprias mulheres. O estudo foi realizado com 8 mil mulheres, de 16 países, incluindo o Brasil. Aqui no país, 46% das entrevistadas responderam que a beleza externa é mais importante do que a interior, 37% afirmaram o contrário e apenas 16% das mulheres acreditam que deve haver um equilíbrio entre os dois. Equilíbrio este que era bem claro na Grécia Antiga, por exemplo. Isto só mostra como a ideia de corpo humano, assim como o conceito de beleza, é construída histórica e socialmente. Os padrões e tendências nem sempre estiveram relacionados à aparência física, mas a um comportamento, maneira de se vestir ou a um conhecimento específico. E estão sempre em transformação. O que não muda é o fato de que a percepção que temos acerca do nosso corpo reflete não apenas quem somos, mas também a maneira como enxergamos o mundo a nossa volta, como estamos inseridos nele e o quão dispostos estamos a ir de encontro a certas imposições.

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