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Corpo, Beleza, Rede social e Saúde mental: O que têm a ver?

  • 6 de nov. de 2017
  • 7 min de leitura

2,46 bilhões de pessoas no mundo usam as redes sociais rotineiramente., segundo levantamento do eMarketer. (Foto: Freepik)

As redes sociais conectam as pessoas, são espaços de debates e permitem questionamentos acerca dos padrões de beleza. E tudo isso é muito importante. Porém estas mesmas redes sociais podem se tornar ambientes propícios para o desenvolvimento de transtornos mentais.

Uma pesquisa divulgada em maio pela Sociedade Real para Saúde Pública, da Grã-Bretanha, mostrou que o Instagram é a pior rede social para saúde mental dos jovens. O YouTube foi o melhor colocado, seguido pelo Twitter, Facebook e Snapchat. No estudo, realizado com 1.479 pessoas com idades entre 14 e 24 anos, os aplicativos populares foram avaliados em pontos como Ansiedade, Depressão, Solidão, Bullying e Imagem Corporal.

Pesquisas desenvolvidas em todo o mundo sugerem que jovens que usam muito as redes sociais, mais que duas horas por dia, têm tendência a apresentar saúde mental precária, incluindo sintomas de ansiedade e depressão. Quando estes jovens veem seus amigos em férias ou saindo à noite, divertindo-se, por exemplo, isso pode fazer com que eles sintam como se estivessem perdendo algo, enquanto os outros aproveitam a vida. As comparações feitas com fotos e vídeos editados ou ensaiados também levam a consequências sérias para a imagem corporal. Dados mais recentes da Academia Americana de Cirurgia Plástica Facial e Cirurgia Reparadora (AAFPRS) mostram uma tendência observada pelos cirurgiões em que as pessoas procuram cirurgias plásticas para aparecerem melhores e mais bonitos nas fotos e nas redes sociais.

Pressão estética

O psiquiatra João Carlos Leitão crê neste lado negativo das redes sociais. “Acredito que em um mundo onde as pessoas se relacionam com fotos e vídeos todos photoshopados, mostrando padrões ilusórios e inalcançáveis de beleza, de felicidade, de riqueza, o uso excessivo das redes sociais e da internet gera um campo fértil ao adoecimento mental”, afirma.


A seção 'Explorar' do Instagram pode um mundo à parte. (Foto: Denise Resende)


O cientista social Marcos Araújo não acha que as interferências são apenas eminentemente ou exclusivamente negativas, já que existem perfis no Instagram que divulgam os padrões de beleza “não-hegemônicos”, mesmo que não sejam a maioria. Há também (em maior número) aqueles que reforçam os padrões e “felicidades artificiais” e que isso, sim, pode potencializar sentimentos de depressão e ansiedade nas pessoas, principalmente jovens. “Mas é importante considerar que o ‘problema’ em si não é a plataforma (se não fosse o Instagram, seria alguma outra rede social), mas os conteúdos, ou melhor, os padrões estéticos, os valores morais e éticos e os estilos de vida que são socialmente valorizados e difundidos para populações que sofrem com problemas sérios”, completa o cientista social.

Falando em sociologia da técnica, Micheline Batista lembra que a tecnologia é ambígua. “Não é boa nem má, pois é o ser humano que define as regras de funcionamento dos artefatos tecnológicos. Portanto, dependendo do uso que se faz dela, pode haver efeitos nocivos”, explica. O grande e rápido fluxo de informações ao qual estamos submetidos podem provocar uma confusão mental. “Creio que o uso excessivo de redes sociais da internet pode, sim, levar a situações estressantes (pelo bombardeio de informações) e de ansiedade (quando as pessoas acham que precisam acompanhar todas as atualizações o tempo todo). Quanto à solidão, a literatura sociológica tem mostrado que mesmo indivíduos que passam muitas horas na frente da tela de um computador não estão necessariamente isolados, pois a rede de relações off-line (composta tanto por amigos íntimos quanto por laços fracos) é transposta para o mundo on-line, de forma que não costuma haver uma ruptura nessas sociabilidades”, lembra Micheline.

A estudante Ana Roberta Amorim acredita que a Internet tem mais lados bons do que ruins, mas lembra de um aspecto cruel inerente ao mundo digital: comentários extremamente negativos e críticos, muitas vezes feitos por anônimos ou fakes. “Uma pessoa que está saindo do ‘fundo do poço’, que tem autoestima péssima e começa a postar fotos, para começar a se reerguer, e vem um comentário ruim, é lado meio perverso da internet”, afirma a estudante.

A professora Elaine Magalhães, da Pós-Graduação em Psicologia da UFPE, reforça a relação entre internet e saúde mental ressaltando os comportamentos compulsivos e dependência que o uso excessivo da Internet podem provocar. “A questão da dependência se define assim: você começa em um comportamento e você precisa de cada vez mais tempo para chegar a um nível de satisfação. É como o álcool. No vício, o limite vai se estendendo de tal maneira que você precisa de cada vez mais uso. Isto é um aspecto que pode se tornar patológico”, explica. O uso excessivo da Internet também pode levar a dores físicas no corpo, coluna e olhos. Inclusive, o vício em celular e o medo, ansiedade e estresse provocados pela possibilidade de ficar sem o aparelho e acesso à Internet têm nome: Nomofobia. Esta dependência normalmente está relacionada a transtornos, como ansiedade, fobia social, síndrome do pânico e transtorno obssessivo compulsivo.

Expectativa versus Realidade

Mas a parte boa é que já tem gente disponível a mostrar que nem tudo que está na internet é verdade ou que nem tudo é o que aparenta ser. Diagnosticada com com câncer no estômago em agosto deste ano, a blogueira Nara Almeida desabafou em sua conta do Instagram sobre a busca excessiva pelo “corpo dos sonhos” e exaltação da magreza. O tratamento do câncer fez com que ela perdesse muito peso, de 55 quilos foi para 41. Os seus seguidores logo começaram a elogiar o corpo e perguntar qual dieta ela estava seguindo. Mas não era regime, era a doença.

“Gente, pelo amor de Deus, FOTO ENGANA e engana muito! Nas fotos, parece que estou super saudável, magra, gostosa… Mas a realidade é que estou muito abaixo do meu peso, me sinto cansada, estou com anemia e vários outros problemas, só eu sei o quanto estou debilitada. Não consigo me alimentar mais, até a água que eu tomo, coloco pra fora em questão de minutos, meu estômago não processa nada! Hoje o que me mantém viva é a sonda que faço alimentação via enteral”, escreveu na legenda da foto, completando que, muito mais importante do que ter um “corpo dos sonhos”, é ter um corpo forte e saudável.


Nara Almeida luta contra um câncer no estômago e e se deparou com comentários positivos sobre sua magreza decorrente do tratamento (Foto: Reprodução Instagram)


A fotógrafa tailandesa Chompoo Baritone divulgou em sua página do Facebook, em 2015, um ensaio intitulado “Slow Life” (“Vida Lenta”, em tradução livre) em que mostra o poder do Instagram de transformar ambientes simples em imagens com grande apelo. Tudo vai depender do enquadramento certo e o filtro e edição aplicados à imagem. Ela caracterizou as fotos como uma “sátira social do comportamento humano atual” e escreveu na legenda da foto abaixo: “Eu sei que se quisermos fazer algo parecer legal e na moda, nós podemos”.

Enquadramento é a o segredo para uma boa foto (Foto: Repdrodução Facebook)

De maneira bem humorada, a comediante australiana Celeste Barber ficou popular no Instagram (ela já tem mais de 2 milhões e meio de seguidores) justamente por recriar fotos postadas pelas celebridades. Ela mostra a utopia dos padrões e as distorções entre o mundo real e o mundo glamourizado das redes sociais e dos famosos, mostrando que nem sempre as expectativas correspondem com a realidade.

A modelo Alexis Ren X Celeste Barber (Foto: Reprodução Instagram)

Saúde mental em pauta

A saúde mental também virou assunto de canais no YouTube e de redes sociais. A jornalista Daiana Garbin, 34 anos, foi diagnosticada com dismorfia corporal e, para ajudar outras pessoas que convivem os transtornos de distorção de imagem, em abril de 2016, Daiana deixou a Rede Globo e criou o Movimento EuVejo. As primeiras lembranças que ela tem da relação conturbada com o corpo é de quando ainda era criança. Daiana passou 22 anos odiando o próprio corpo, fazendo dietas restritivas, fez três lipoaspirações, além de procedimentos estéticos agressivos e ficou viciada em remédios para emagrecer.

“Desde os 5 anos eu odeio o meu corpo. Eu me olho no espelho todos os dias, eu me sinto gorda, eu queria ser magra. Eu já fiz as maiores loucuras que vocês podem imaginar para emagrecer, porque eu queria ser magra. [...] Porque eu acho aquilo lindo e porque alguém enfiou na nossa cabeça, eu não sei quem, eu não sei de onde vem isso, de que o magro é bonito. [...] Isso é uma coisa que me persegue e eu sei que não estou sozinha” desabafou no primeiro vídeo do seu canal no YoutTube, EuVejo. Semanalmente, ela posta vídeos com a participação de profissionais da área de saúde e outros convidados para falar sobre a relação com o corpo e com a comida, a vergonha do corpo, transtornos alimentares e de imagem. Em outubro deste ano, Daiana lançou o seu primeiro livro sobre o tema: “Fazendo as pazes com o corpo”.

Mirian Bottan, jornalista paulista, de 30 anos, conviveu com a bulimia por 15 anos. Para Mirian, o gatilho para o desenvolvimento do transtorno alimentar foi ter uma balança em casa. Ela chegou a pesar 38 quilos e ter 15% da gordura corporal, mas não parecia suficiente e ela queria mais. Em 2013, percebeu que não poderia mais viver daquele jeito e procurou ajuda psicológica.Hoje, ela mantém um canal no YouTube, uma conta no Instagram, administra grupos de apoio no Facebook, além de fazer palestras pelo Brasil contanto sobre sua experiência e superação.


"Amar o nosso corpo não tem nada a ver com o nosso corpo, o trabalho é com a nossa cabeça! É treinar todo dia pra lembrar que seu corpo é seu principal aliado, seu veículo, seu lar, não um enfeite escravo do olhar alheio", escreveu Mirian Bottan, em seu Instagram, que já soma mais de 350 mil seguidores. (Foto: Reprodução Instagram)


A Sociedade Real para Saúde Pública e a Young Health Movement sugerem algumas medidas para o governo e empresas de redes sociais promoverem o lado positivo destas novas mídias digitais. Avisos em pop-up alertando quanto ao uso elevado das redes sociais, identificação de usuários que poderiam estar sofrendo com problemas na saúde mental, baseando-se pelos posts e discretamente oferecendo apoio àqueles usuários, além de sinalizar quando as fotos postadas tiverem sido digitalmente manipuladas são algumas das recomendações para se atenuar os danos à saúde mental dos jovens. Mesmo com tais mudanças que, de fato, poderiam ser incorporadas aos aplicativos, nada substitui o acompanhamento feito por um profissional.

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