top of page

Maria, se eu pudesse te emprestar meus olhos por um minuto só...

  • 5 de nov. de 2017
  • 7 min de leitura

Se você visse Maria por aí, diria que ela é uma pessoa aparentemente comum, tirando, é claro, o olhar perdido que carrega o tempo todo. Tem os 206 ossos do corpo intactos, os órgãos internos funcionam como devem e o fone está sempre no ouvido, com alguma música tocando. Ela vive dizendo que as costas doem um pouco, é verdade, mas é tudo culpa da má postura incorrigível. Nada de muito errado. O seu nome é igual ao da mãe, ao da avó e ao da outra avó. Todas Marias de Alguma Coisa, mas ela é só Maria. E Maria tem um segredo não tão secreto assim: ela se odeia, odeia a própria imagem e corpo.

(Ilustração: Lehi Henri)

Por muitos anos, quando criança, Maria fez natação no colégio. Ela era até boa. Ganhou algumas medalhas por aí. Só que tinha um problema (pelo menos para ela): os anos afinco nadando moldaram o corpo de uma maneira que os ombros ficaram mais largos que a cintura e o quadril. O peitoral parecia que estava o tempo todo estufado. Odiava. Todo dia encarava o espelho tentando entender o que havia de tão errado. Perguntava a todo mundo, mas ninguém tinha a resposta que ela queria ouvir. Recorreu, então, à internet: Tipos de corpos. Pesquisar. Triangular? Acho que não. Oval? Também não. Triângulo invertido? Esse sim. Anotou mentalmente o que poderia e não poderia vestir para disfarçar o formato do corpo. O próximo item na lista era destinado para mulheres do tipo ampulheta. “Você é abençoada, se tiver esse corpo. Você tem um dos tipos de corpos femininos mais invejados”, dizia o site. Maria deu um gritinho [de inveja], porque sabia que nunca teria aquela silhueta, afinal de contas, não era abençoada. Jurou que nunca mais usaria um biquíni ou maiô e que nunca mais entraria em uma piscina ou numa praia, não importa o calor que fizesse. Não com aquele corpo.

Maria é gorda. Sempre fora. Às vezes, um pouco mais. Às vezes, um pouco menos. A balança que tem no banheiro de casa não a deixa esquecer deste detalhe. Pesar-se já faz parte da rotina matinal, assim como escovar os dentes e tomar banho. Outro dia encontrou uma ex-vizinha. “Cresceu, mas continuou gordinha, né? Risos”. Para a sociedade, ser gorda é horrível, um crime, sinal de preguiça e relaxamento. Para ela, também era horrível, porque ninguém nunca havia lhe dito o contrário. Um fardo que carrega sozinha, esperando que ninguém perceba suas inseguranças. Tudo poderia ser mais fácil se ela se aceitasse do jeito que é, mas não parece ser tão simples assim.

Maria já foi no Vigilantes do Peso, já fez a dieta da lua, das sopas e dos pontos. Já foi em todos os nutricionistas e endocrinologistas disponíveis no livrinho do plano de saúde. Não satisfeita, ainda pagou caríssimo por consulta particular. Ninguém nunca conseguiu descobrir o grande mistério do mundo: Por que RAIOS Maria não consegue emagrecer? Ela tomou remédio, comeu cada vez menos até parar de comer. Na verdade, teve um tempo em que comia uma maçã e uma torrada por dia. Mesmo assim, o menor peso que Maria alcançou ainda era pesado demais para ela.

O que acontecia era que Maria tinha uma relação complicadíssima com a comida. Era compulsiva. Comia sem fome. Comia até passar mal, depois chorava, porque sabia que não podia ter comido tanto. Em casa, guardava comida no bolso para ninguém ver que tinha pego um pacote fechado de biscoito no armário da cozinha. Na rua, tinha vergonha de se alimentar na frente dos outros e, então, se contentava com pouquinho. Comida era um escape quando estava triste, feliz, estressada, ansiosa ou entediada.

Maria chegou a se matricular algumas vezes na academia. Pagou o ano todinho e foi apenas nos três dias da primeira semana. Ela se sentia inferior e estranha naquele ambiente. “Todas as mulheres são magras, musculosas e bonitas e eu sou do jeito que eu sou”, ela dizia, com má vontade. Ela tem certeza que viu algumas pessoas rindo dela e nunca mais voltou. Maria até tentou caminhar, mas o tempo livre era curto demais e o bairro era perigoso também, qualquer desculpa era uma boa desculpa para ela.

O engordar-emagrecer-engordar constante fez com que as marcas na pele começassem a aparecer em Maria cedo demais. Além de tudo, ainda tinha que lidar com as malditas estrias nos braços, pernas, coxas e quadril. Estrias são quase impossíveis de sumir, dá para suavizar a aparência, mas elas não desaparecem, segundo ela pesquisou. Comprou diversos cremes que não funcionaram. Ela queria algo mais agressivo. Descobriu um tratamento que parecia bom e juntou o dinheiro por um ano para pagá-lo. Depois da primeira sessão do tal microagulhamento, teve certeza que qualquer tipo de morte seria menos dolorosa. Um rolo cheio de agulhas pequeninhas indo e vindo, sendo empurradas sobre a sua pele por quase meia-hora para estimular a produção de colágeno e renovar a epiderme. Ela quase chorou, mas foi forte. “Vale a pena, vale a pena, vale a pena, vale a pena”, ela repetiu até que o pensamento anestesiou a dor. Foram mais 9 sessões e quase seis meses assim. No fim, não ficou tão bom, mas dava para o gasto.

Quando estava com as amigas, Maria não falava muito. Mas observava tudo. Olhava ao redor e só conseguia pensar em como eram todas magras e, até as que um dia foram gordas, agora já não eram mais. Menos ela e aquilo a incomodava muito. Maria também não tirava fotos, nem com amigos, nem com a família, muito menos selfies. Achava que os defeitos ficavam mais em evidência e evitava todos os tipos de exposição do rosto e do corpo em qualquer lugar que fosse.

Maria andava sempre de cabeça baixa, se escondendo do mundo. Odiava o nariz largo e pontudo. Quem sabe um dia teria dinheiro suficiente para fazer uma cirurgia. Também se perguntava porque a genética não havia sido generosa com ela, por não ter herdado os olhos claros da família da mãe, o castanho escuro era tão sem graça. A testa era grande demais e os dentes, tortos. Era jovem, mas jurava que o rosto estava cheio de rugas. Nada estava bom.

O cabelo, que é cacheado, um dia já fora alisado com química pesada. Horas e mais horas no salão. O calor quente do secador já tinha machucado tanto que nem sentia mais. Um dia, decidiu se dar o luxo de assumir os cabelos naturais. No começo foi difícil, mas depois se acostumou. Maria se inspirava nas meninas que seguia na internet, tanto que comprava todos os produtos indicados, mas, como sempre, o mundo conspirava contra ela e nada parecia funcionar. E, mais uma vez, sentiu-se frustrada.

Quando encontrava um espelho, passava horas se analisando. Via um monstro, se achava feia. A visão já estava tão deturpada que não conseguia mais se reconhecer. A mãe, o cachorro, a prima, a avó, todo mundo dizia que ela estava ficando paranoica. “Não tem nada de errado aí, menina”. Para Maria, no entanto, os seus defeitos estavam cada vez mais perceptíveis. Se Narciso, da mitologia grega, se apaixonou pela própria beleza, Maria se tornou uma pessoa obcecada pelos próprios defeitos.

(Ilustração: Lehi Henri)

Outro dia, ela quebrou um recorde: foi em todos os shoppings da cidade, entrou em quase todas as lojas que podia e saiu com nada. As roupas não cabiam nela, porque eram pequenas demais, apertadas demais, não eram feitas para ela. Além disso, Maria só usa preto e gosta de dizer que é porque é uma cor neutra, mas, na verdade, é porque acha que aparenta ser mais magra; não usa roupas que mostrem o braço, porque são muito grossos; não usa shorts, saia ou vestido, porque não gosta das pernas. Só veste calça jeans, faça chuva, faça sol. O guarda-roupa é quase todo formado por roupas que serão usadas apenas quando ela finalmente conseguir emagrecer. Um dia.

E assim levava a vida. Sempre imaginando como seria se não fosse quem era e se comparando com qualquer pessoa que cruzasse na rua ou visse nos filmes, séries de TV, novelas e revistas. Aos poucos foi recusando convites para sair de casa e passou a evitar situações sociais de qualquer tipo. Maria se isolou de tudo e de todos até perceber que deveria buscar ajuda. Mas de quem? “Se ninguém pode me ver com os olhos com os quais eu me vejo, como poderão entender o que estou sentindo?” era o seu pensamento mais recorrente. Um psicólogo e um psiquiatra pareciam ser as opções mais adequadas.

Na primeira sessão, falou, falou como nunca, desabafou e até chorou um pouco. Na segunda, falou um pouco menos. Na terceira, só ouviu. Um diagnóstico: Transtorno Dismórfico Corporal (TDC). Isto é, um transtorno mental que afeta a percepção que Maria tem da própria imagem. Maria se vê de maneira distorcida. A dismorfobia, como também é chamada, faz com que a pessoa tenha um foco obsessivo em um defeito (real ou imaginário) que acredita ter na própria aparência. Não tem cura exata, mas pode ser tratado com terapias e medicamentos para atenuar os sintomas da ansiedade e depressão, que também podem ser desenvolvidos junto com o TDC.

Quando saiu do consultório, Maria teve um sentimento agridoce. Ela tinha um problema, precisava de tratamento e sabia que teria que conviver para sempre com aquilo. Porém, ao mesmo tempo, com o diagnóstico, poderia não apenas entender a si própria melhor, como também seria melhor compreendida pelas outras pessoas. Não era frescura, como já tinha ouvido tantas vezes, era um distúrbio sério.

Maria sente o peso da pressão estética. Uma pressão que vem de todos os lados. Um padrão que é inalcançável e irreal. Maria não tem idade. Maria está no colégio, no trabalho, no ciclo de amigos e dentro de casa. Maria são meninas e meninos, homens e mulheres, jovens, adultos, inclusive idosos. Maria pode até ser você eventualmente.

O caminho de autoaceitação é longo. Aos poucos, os olhos tentam se readequar, apesar das inúmeras recaídas. Maria continua com o mesmo corpo, peso e nariz. Os ossos seguem intactos. Os órgãos continuam funcionando. Apesar de tudo, Maria já entende também que não precisa ser igual a fulana de tal e que ninguém é perfeito, como ela imaginava. Já até marcou uma praia com as amigas, mas ainda não sabe se vai mesmo. “MARIA, SE LIBERTE” dizem a ela. No fundo, Maria sabe que nunca estará totalmente livre, porque lutar contra o próprio cérebro é sempre uma batalha difícil. O que ela sabe é que pode melhorar e está tentando. E, por agora, isso parece ser suficiente.

Comentários


Posts Recentes

Arquivos

Tags

bottom of page